terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Possessão, transtornos cerebrais e o problema da alma imaterial


Autor: Mario Arthur Favretto


Ao longo de toda sua existência, o ser humano tem se deparado com diversos fenômenos que não sabe explicar. Não havendo um corpo de conhecimentos conciso que pudesse ser utilizado para tal e sendo um símio imaginativo que é, desenvolveu diversas explicações sobrenaturais numa tentativa de criar respostas para os problemas que o rondavam. Desta forma, fenômenos naturais como trovões e secas, foram atribuídos a deuses zangados, bem como outras entidades sobrenaturais.
Doenças, por serem ocasionadas por seres vivos que não são visíveis a olho nu, ou disfunções desconhecidas no funcionamento do organismo humano, foram atribuídas a entidades sobrenaturais malignas ou justiceiras. Atualmente, com os avanços das ciências biológicas e médicas, muitas destas doenças que se acreditava serem ocasionadas por seres sobrenaturais, passaram a ser melhor entendidas, onde vírus, bactérias e disfunções psiquiátricas/neurológicas tornam-se explicações corriqueiras.
Conforme mencionado em texto anterior neste blog, pessoas com epilepsia, por exemplo, eram consideradas pessoas sob influência de deuses ou espíritos malignos na antiguidade e idade média, ou como pessoas possuídas por demônios, conforme afirma a bíblia cristã sobre a epilepsia, ainda utilizada atualmente (Bíblia cristã - Mateus 17: 15-18). Porém, mesmo durante períodos antigos, muitos homens ilustres procuraram uma explicação científica para a causa dessa doença, conforme diversos dados apresentados por Magiorkinis e colaboradores (2010), referente à abordagem da epilepsia no antigo Egito, Babilônia, Grécia e Roma. Atualmente, pessoas com epilepsia passaram a ser tratadas de forma digna com medicamentos e um acompanhamento médico, tratamentos desenvolvidos pela ciência.
Percebe-se então que desde a antiguidade, apesar dos esforços depreendidos por diversos pesquisadores, e de diversas fontes de informações e conhecimentos gerados, a explicação sobrenatural para doenças sem causa visível aparente continuou sendo utilizada em detrimento da realidade. Desta forma, certas doenças foram consideradas como comprovações dos anseios pela existência do sobrenatural que tantas pessoas possuem.
Um dos primeiros aspectos a analisarmos nesta situação é que possessão implica na existência de almas ou outras entidades imateriais não detectáveis por nenhuma tecnologia atualmente e que de certa forma poderia interagir com a matéria. Assim, supostamente um demônio ou alma penada, existiria de forma imaterial, mas mesmo essa imaterialidade interagiria com a matéria, alterando o comportamento de uma pessoa e utilizando seu corpo para fins demoníacos. Esta suposta possessão acaba implicando na existência de uma também suposta alma humana que seria de certa forma tirada do corpo humano, relegada a algum canto dentro da própria pessoa, enquanto a alma invasora controlaria o corpo da pessoa.
Porém, sobre o problema da alma devemos abordar as afirmações de Costa (2005):

“[...] segundo a lei da conservação da energia, a quantidade de energia do Universo deve permanecer a mesma; mas se alguma energia do mundo material se perde na alma, ou esta a introduz no mundo material, essa lei precisa ser revista. Outro exemplo: a teoria da evolução ensina que nós evoluímos a partir de espécies inferiores. Quando teria então surgido a alma? Como explicar, ademais, que precisamos de um cérebro tão grande, se uma alma inextensa [e diríamos aqui imaterial*] com certeza caberia em um cérebro do tamanho de um grão de ervilha? Como explicar o efeito de drogas e medicamentos na mente? Como explicar que uma doença como a de Alzheimer, que reduz o cérebro até um terço do seu tamanho, tenha efeitos tão devastadores sobre a atividade mental? Como explicar, em suma, o papel do cérebro? [...]” * - Adendo meu.

Se existisse uma alma imaterial e nela estivessem contidas todas as nossas lembranças, sentimentos, desejos, tudo que compõe nossa personalidade, como então doenças neurodegenerativas poderiam influenciar estas aptidões? Se existisse uma alma, como uma pessoa com mal de Alzheimer poderia perder suas memórias? Se alma possui todas estas características que serão usadas em um plano pós-vida, então não haveria motivos para nos preocuparmos com doenças e transtornos mentais. Só por estas afirmações já percebemos que as respostas para estas dúvidas implicam na inexistência de uma alma, e assim, na inexistência deste fenômeno de possessão.
O cérebro é um conjunto de neurônios que, em seu funcionamento como um todo, pode permitir um processo de emergência, onde encontramos então a consciência e por meio destas interações entre neurônios temos a formação do que chamamos de “eu”, onde não há uma divisão entre mente e cérebro, pois ambos são a mesma entidade física. Porém, longe de ser um órgão perfeito o sistema nervoso de todos os animais está sujeito a falhas, em especial por meio de excesso ou falta de produção de certos neurotransmissores que implicam em alterações na forma como o cérebro funciona. Por vezes acontecendo uma ruptura com a realidade o que poderia implicar no surgimento de alucinações, em caráter mais frequente como esquizofrenia ou em eventos isolados como surtos psicóticos, que ainda em algumas ocasiões podem ser considerados não-patológicos. Para tanto, basta que ocorram alterações no funcionamento de suas vias dopaminérgicas, por exemplo, e toda a percepção da realidade por parte do indivíduo é alterada (Brandão, 2004).
Estes estados de consciência alterada, muitas vezes seguidos de alucinações, podem ser induzidos por sugestão e manifestados por estado sonambúlico, que podem resultar em modificações deste estado por meio de respostas verbais e físicas dadas as injunções sugestivas. O indivíduo sugestionável assume de forma temporária outras identidades, confusão mental ou sonolência, além de grande desgaste físico e amnésia ao sair do processo (Nina-Rodrigues apud Almeida et al., 2007), provavelmente sendo estas induções responsáveis pelos êxtases e transes religiosos ou eventuais “possessões” em cultos.
Tal apropriação de pessoas sugestionáveis a estas situações é uma deturpação de um provável estado de saúde mental debilitado, em que as pessoas que deveriam procurar auxílio médico e não participar destas atividades, acabam sendo usadas como atrações religiosas devido a falta de conhecimento científico da grande maioria da população. Assim permanecemos como na antiguidade, com doenças sendo confundidas com possessões demoníacas.
Observe que em estudo com 115 médiuns em São Paulo, Almeida (2004) constatou que:

“[...] a mediunidade provavelmente se constitui numa vivência diferente do transtorno de identidade dissociativa. A maioria teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e estas, atualmente, se caracterizam por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia.”

Desta forma, a alucinação não é necessariamente algo patológico, estima-se que 10-30% da população sem patologias mentais tenham tido alguma experiência deste tipo (Almeida, 2004). Essas ocorrências de “deslizes” no funcionamento cerebral contribuem para que se espalhe a ideia de visões sobrenaturais e eventuais possessões. Principalmente associadas a um ambiente de falta de conhecimento científico por parte da população e ao profundo desejo de acreditar na existência do sobrenatural, que de certa forma, seria uma confirmação das expectativas em relação à existência de um pós-morte.
Nesta discussão seria ainda importante mencionar a síndrome de Gilles de la Tourette, doença cujos sintomas já foram definidos como possessão demoníaca (Cavana e Ricards, 2013). Seus sintomas são similares aos descritos no livro Malleus Malleficarum para pessoas que supostamente estariam possuídas por um demônio (Orsi, 2011). Essa doença é um transtorno neuropsiquiátrico que geralmente ocorre na infância, mas que se prolonga para a idade adulta, ocasionando tiques motores e vocais, ocasionada por alterações neurofisiológicas e neuroanatômicas (Fen et al., 2001). Um vídeo de uma pessoa com um caso extremo desta síndrome pode ser visto abaixo. Após ver o vídeo, refletindo sobre a situação em que estas pessoas e outras que apresentam síndromes e alterações no funcionamento bioquímico e fisiológico do cérebro se encontram, não deveríamos nos esforçar para que houvesse um maior entendimento público sobre o que é ciência e medicina de verdade, e tentar reduzir a difusão de pseudo-ciências, pseudo-medicinas e crendices? O que seria de uma pessoa dessas em uma sociedade ainda tomada por crenças plenas na existência de demônios? Seria exorcizada e queimada em uma fogueira? A compreensão mais aprofundada da ciência, medicina e a prática do ceticismo diante de crenças são fundamentais para garantir que pessoas com transtornos neurológicos/neuropsiquiátricos passem a ter um atendimento humanizado e correto. Que não sejam mais vistas como aberrações demoníacas em palcos de igrejas ou rituais de exorcismo, e sim recebam o tratamento adequado para que possam seguir de forma digna com suas vidas.





Referências
Almeida, A.A.S.; Oda, A.M.G.R.; Dalgalarrondo, P. 2007. O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista de Psiquiatria Clínica 34(supl. 1): 34-41.
Almeida, A.M. 2004. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese. Departamento de Psiquiatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. 278p.
Brancão, M.L. 2004. As bases biológicas do comportamento: introdução à neurociência. Ed. Gráfica Pedagógica Universitária. 244p.
Cavana, A.E.; Rickards, H. 2013. The psychopathological spectrum of Gilles de la Tourette syndrome. Neuroscience and Behavioral Reviews 37: 1008-1015.
Costa, C. 2005. Filosofia da Mente. Ed. Zahar. 67p.
Fen, H.C.; Barbosa, E.R.; Miguel, E.C. 2001. Síndrome de Gille de la Tourette: estudo clínico de 58 casos. Arquivos de Neuropsiquiatria 59(3-B): 729-732.
Magiorkinis, E.; Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity. Epilepsy & Behavior 17: 103-108.
Orsi, C. 2011. O livro dos milagres: a ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos. Rio de Janeiro: Vieira & Lent.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Um pouco sobre as interações entre parasitoides e borboletas

Autor: Elton Orlandin 


As interações entre as inúmeras espécies abrangem uma gigantesca gama de variáveis, que as tornam belas (sob o ponto de vista humano, já que a natureza não possui senso de beleza). Algumas dessas interações beneficiam ambas as espécies (mutualismo), outras beneficiam apenas uma, enquanto a outra não perde e nem ganha nada com a interação (comensalismo). Porém é a interação consumidor-recurso, a mais fundamental na natureza, uma vez que todos os organismos precisam comer, e podem ser comidos. As formas comuns de consumidores são predador, parasita, parasitoide, herbívoro e detritívoro.
Dentre as formas de interação consumidor-recurso, a forma parasitoide é uma das mais complexas, pois de certa forma os parasitoides assemelham-se a parasitas, por residirem dentro do hospedeiro e comerem os tecidos enquanto estes ainda estão vivos; e aos predadores, por matarem seus hospedeiros. No entanto a morte do hospedeiro acontece apenas após as larvas parasitoides terem completado seu desenvolvimento.
A maior parte dos parasitoides conhecidos são espécies de himenópteros (vespas), e dípteros (moscas) cujas larvas consomem os tecidos de hospedeiros vivos, geralmente os ovos, as larvas ou as pupas de outros insetos. É interessante citar ainda que, os parasitoides têm seus próprios parasitas, os quais são chamados de hiperparasitoides.
Os lepidópteros (borboletas) servem de hospedeiros para uma vasta gama de parasitoides. Tanto himenópteros quanto dípteros se utilizam de seus imaturos para dar continuidade as suas linhagens, e essa interação se desenvolveu ao longo de milhares de anos de coevolução envolvendo diversas adaptações comportamentais e fisiológicas do hospedeiro e do parasitoide.
Hospedeiros lepidópteros procuram evitar parasitoides adultos da mesma forma que evitam predadores: através de comportamentos de agregação, deixando-se cair da planta onde se encontram ou ainda através de contorções que podem atrapalhar o ataque do parasitoide. Alguns podem também apresentar camada protetora nos ovos, cutícula mais espessas ou casulos muito emaranhados, desestimulando ataques. Outros ainda regurgitam sobre o atacante ou secretam compostos venenosos que podem matar ou afastar o parasitoide. Há ainda aqueles que possuem relações simbióticas com formigas, sendo defendidos, dos ataques por estas. Quando todas essas defesas falham há ainda a possibilidade de destruir os ovos ou larvas parasitoides utilizando-se de células de defesa, os hemócitos, presentes na hemolinfa, que fagocitam e encapsulam organismos estranhos.
Em contrapartida os parasitoides desenvolveram e aperfeiçoaram diversas estratégias a fim de enganar o hospedeiro ou de suprimir seu sistema imunológico. O ectoparasitoidismo consiste em depositar ovos sobre a presa, ao invés de colocá-los dentro do corpo desta, sendo uma maneira efetiva de evitar o contato dos ovos do parasitoide com o aparato fisiológico da presa, evitando assim a resposta imune. O ataque a ovos e pupas também é uma solução estratégica, já que nestas fases a resposta imune é baixa ou nula.
O mimetismo molecular, em que parasitoides recobrem seus ovos com uma camada proteica muito parecida com as proteínas da presa, enganando o sistema imune desta, e auto-encapsulação em que o parasitoide constrói uma cápsula envolvendo seus ovos, impedindo que a resposta imune da presa os destrua, também são estratégias com vistas de enganar o hospedeiro.
Além disso, existem ainda parasitoides que realizam a supressão da resposta imune do hospedeiro, injetando vírus junto com os seus ovos, dentro do corpo da presa, fazendo com que o sistema imune se ocupe do vírus minimizando assim a resposta imune ao parasitoide. E há larvas de parasitoides que ao nascerem dentro de uma encapsulação feita pela presa, alimentam-se desta cápsula, ganhando acesso ao resto do corpo da presa.
No entanto, contornar o sistema de proteção do hospedeiro é apenas a primeira etapa. Após vencê-la os parasitoides precisam induzir o hospedeiro a determinadas respostas que tornem o ambiente propício ao seu desenvolvimento, em detrimento do desenvolvimento do hospedeiro. Essa indução é chamada de “Regulação Hospedeira”. A regulação hospedeira pode implicar em diversas alterações nas características naturais do hospedeiro como mudanças nas diversas atividades celulares, na quantidade e tipos de nutrientes acumulados no tecido adiposo, no comportamento alimentar, no armazenamento e produção de hormônios, e no desenvolvimento dos órgãos reprodutivos.
Após driblar todos os sistemas de defesa do hospedeiro, alimentar-se e desenvolver-se em seu interior, o parasitoide emerge, ou como larva de último instar, empupando muitas vezes próximo ou junto ao corpo do hospedeiro; ou ainda como adulto, de dentro da pupa de sua presa. Em todos os casos o hospedeiro, não consegue chegar à fase adulta, morrendo após servir de alimento às larvas de moscas e vespas.
Todas essas relações envolvendo parasitoides e presas são fruto de um alto grau de adaptações, selecionadas através da evolução ao longo de milhares de anos, tendo por base aspectos coevolutivos que levaram ao surgimento de milhares de espécies com capacidades diferentes de responderem a essas interações.






Referências

Gross, P.1993.Insect behavioral and morphological defenses against parasitoids. Annual Review of Entomology, v. 38, p.251–273.

Gullan, P.J., Cranston, P.S. 2012. Os Insetos: Um resumo de Entomologia. 4. ed. São Paulo: Roca. 480 p.

Hassel, M. P. 2000. Host-parasitoid population dynamics. British Ecological Society, Journalof Animal Ecology. V. 69, p.543-566.

Hegazi E.,Khafagi W. 2008. The effects of host age and superparasitism by the parasitoid, Microplitis rufiventris on the cellular and humoral immune response of Spodoptera littoralis larvae. J Invertebr Pathol. v.98, p.79–84.

O’Hara, J.E. 2008. Tachinid Flies (Diptera: Tachinidae). p. 3675-3686 . In: Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

Ricklefs, R. E. 2010. A Economia da Natureza. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 572p.

Rossi, G. D. 2012. Explorando as interações hospedeiro-parasitoide para a identificação de moléculas com potencial biotecnológico. Tese (Doutorado). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Piracicaba, SP. 125p.

Sullivan, D. J. 2008.Aphids (Hemiptera: Aphididae). p. 207-206. In:Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

Zuparko, R. L.2008. Parasitic Hymenoptera (Parasitica). p. 2730-2736 . In:Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

domingo, 16 de agosto de 2015

Incongruências em fantasmas, assombrações e afins

Autor: Mario Arthur Favretto


Muitos acreditam que quando uma pessoa morre uma parte imaterial de si passa para outro plano, ou para outra existência, apesar de em Eclesiastes 3:20 haver a menção de que do pó veio e ao pó voltarás, pois todos vão a um mesmo lugar. Steven Pinker (2013), psicólogo evolucionista menciona que mesmo em crianças há algo no funcionamento do cérebro das pessoas que torna difícil entender a finitude da vida. Quando crescemos construímos melhor o conceito de fim da vida, nosso cérebro compreende o fim dos corpos. Ainda assim, algumas pessoas apreciam a possibilidade de uma continuidade como um consolo para a curta e sofrível existência humana.
É comum que pessoas procedam com supostos testemunhos sobre aparições de fantasmas ou de entidades sobrenaturais. Porém, há certos aspectos destas aparições que demonstram que estas podem mais ser fruto da mente humana do que a prova de uma realidade sobrenatural. Analise desta forma, para que fantasmas e assombrações usam roupas? Em muitos relatos de aparições e pessoa está usando roupas, mas para quê? A roupa é feita de tecidos vegetais, animais ou sintéticos, como esta roupa acompanha a pessoa numa vida além morte? Se a pessoa não sente frio e nem calor, pois não possui mais um corpo material, se possui mais um propósito de atender normas sociais contra nudismo e exposição de partes sexuais (que segundo dizem, anjos não possuem), então por que fantasmas e assombrações usam roupas? Não seria por se tratar apenas de um lapso no funcionamento neuronal da pessoa que fez com que ela tivesse uma alucinação?
Outra questão importante, por que os fantasmas geralmente têm uma aparência cadavérica, mórbida e assustadora? Não é por que a mídia impõe essa visão das assombrações e assim quando a pessoa por algum motivo alucina é remetida a esse aspecto? Se o corpo material é transitório, por que haveria de o “corpo” pós-morte ter a aparência de um corpo vivo ou manter todas as características do momento da morte? Se a assombração é algo imaterial, como poderia agir com o material, encostando em objetos, produzindo sons e afins, se seu meio de contato com o material já apodreceu? Ou ainda, por que as assombrações só aparecem a noite, justamente quando as pessoas estão com sono ou quando acordam em meio a noite, e assim, fica-se mais suscetível que o subconsciente interaja com o consciente produzindo uma alucinação, um sonho lúcido ou uma paralisia do sono?
Desta forma, vemos que as supostas afirmações sobrenaturais, são cheias de incongruências que levam ao entendimento de serem uma explicação inventada para outros fenômenos materiais que levam a pessoa a observar algo que não existe. Ou seja, fenômenos biológicos, como alucinações. É possível que as pessoas só aceitem a ideia de alucinação quando acabarmos com certos preconceitos associados a esse fenômeno e que assim levam a ocorrência da psicofobia, preconceitos em relação a pessoas que possam ter funções psicológicas/neurológicas alteradas. Até que isto ocorra, a explicação sobrenatural será considerada mais bela e reconfortante, afinal, serviria como um reforço para as crenças das pessoas, do que a explicação relacionada a um problema, mesmo que ocasional, no funcionamento neuronal destas.
É necessário afirmar que a alucinação não é necessariamente algo patológico, tanto que pode ser induzida por estados de estresse ou consumo de diferentes substâncias químicas. Almeida (2004), afirma que 10% a 30% da população sem patologias mentais já teve algum tipo de alucinação. Ou seja, estes estados de consciência alterados podem ser mais comuns de ocorrerem do que imaginamos, necessitando a plena compreensão de tratar-se de algo físico nos neurônios e não algo relacionado a existência de fantasmas e assombrações.
Até há pouco tempo a epilepsia era considerada como fruto de possessão, em algumas culturas divina e em outras demoníaca, porém com o avanço do conhecimento científico esclarecido que tratava-se de uma disfunção no cérebro (ver Magiorkinis e colaboradores, 2010), que pode ser medicada e tratada. Assim não precisamos mais realizar exorcismos em pessoas que tenham epilepsia, como afirma a Bíblia (Mateus 17: 15-18). Somente com a difusão do conhecimento científico, do pensamento crítico e reflexivo, poderemos compreender que os fenômenos de fantasmas e assombrações, ocorrem dentro de nossas cabeças, que podem ser ocasionais ou podem ser sintomas de algo mais sério.

Referências:
Almeida, A.M. 2004. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese. Departamento de Psiquiatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. 278p.
Magiorkinis, E.; Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity. Epilepsy & Behavior 17: 103-108.
Pinker, S. 2013. Como a mente funciona. Ed. Companhia das Letras. 3ª edição. 672p.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Mundo, uma criação imperfeita

Autor: Mario Arthur Favretto



Um dos muitos argumentos que ouvimos sobre o mundo ser fruto de uma divindade é aquele que afirma que tudo é perfeito, que tudo no mundo está conectado por energias ocultas, a forma como as espécies estão conectadas, a abelha com seu papel essencial na polinização de certas plantas, o corpo humano, etc. Uma ideia de perfeccionismo onde nós mesmos seríamos considerados seres perfeitos, afinal imagens da própria divindade conforme alguns textos religiosos.

Fonte da imagem: Yathin S. Krishnappa. Wikimedia Commons.

Porém, a natureza não é um meio recheado de benevolência, ela é indiferente perante as situações humanas, em si, não é nem uma entidade imaginativa como uma “mãe-natureza”. O que chamamos por natureza nada mais é do que o resultado de múltiplas interações entre diferentes populações de diferentes espécies coexistindo em um mesmo planeta. Ao longo de milhões de anos de evolução algumas destas interações se tornaram mais “íntimas”, se especializaram, gerando esse aspecto superficial de organização perfeita que algumas pessoas acreditam que seja.
Por detrás deste manto de natureza pacífica, vemos que sua indiferença resulta tanto em resultados que consideramos belos, quanto em resultados terríveis. O mais geral destes resultados que poderíamos considerar terrível é pensar que vivemos em um mundo onde os seres vivos precisam matar ou explorar uns aos outros para sobreviver. Os herbívoros arrancam e dilaceram partes de plantas para sobreviver, prejudicando-as e estas revidam com produção de toxinas. Os carnívoros matam e evisceram outros animais para obter seu alimento. Os parasitas sugam nutrientes ou ingerem partes não vitais de suas vítimas, mantendo-as vivas enquanto vão lentamente se alimentando delas.
O próprio Charles Darwin já havia se assustado com certos aspectos violentos da natureza, como certas espécies de vespas parasitas. Estas possuem como vítimas larvas de Lepidoptera (borboletas e mariposas), nas quais as vespas injetam seus ovos, que, aoeclodirem, passam a devorar sua vítima viva, de dentro para fora. Ou o que dizer de todas as doenças bacterianas, virais ou parasitárias que matam milhões de pessoas todos os anos. Não, não vivemos em um mundo que possa ser considerado como uma criação perfeita. Se este mundo foi criado por alguma divindade, os conceitos de perfeição desta devem no mínimo ser deturpados, e acredito que qualquer um de nós poderia gerar um mundo onde não haveria tanta violência e evisceração.
Isto resulta que não devemos usar a natureza como inspiração para ética e moralidade, estes dois conceitos devem vir de uma reflexão filosófica e de resultados positivos que possam ser obtidos entre as interações humanas e destes com outros seres vivos. Algumas pessoas querem justificar certos comportamentos por ocorrerem em outros animais, comportamentos inofensivos como a homossexualidade, porém se a justificativa desta orientação for baseada na natureza, também a escravidão poderá ser, pois ocorre entre formigas. E também o estupro, a guerra, o infanticídio que ocorrem entre outros animais, como nos símios tão próximos evolutivamente de nós. Ou seja, justificativas de conduta/comportamento social não devem ser baseadas em exemplos da natureza, não obtemos ética e moralidade desta, e sim da reflexão e filosofia. Por isso que, por exemplo, a questão da homossexualidade não se justifica pela existência em outras espécies, e sim pelo fato de esta não realizar mal nenhum para outros seres vivos, trata-se apenas de uma interação amorosa entre dois indivíduos.
Diante desta indiferença da natureza, só nos resta questionar, se o mundo assim o é, nos resta apenas a possibilidade de um deísmo ou panteísmo para aqueles que assim desejam a existência de uma divindade. Um ser que criou o universo apenas para ver o que ocorreria e quais rumos seguiria, sem interferências posteriores, sem eliminação da violência da natureza. Apenas um espectador diante dos caminhos tortuosos que a evolução segue neste nosso pequeno planeta. E neste vasto mar de incertezas, nos resta a reflexão crítica, a filosofia e a ciência para ser a base moral e ética de nossos comportamentos, pois inerentemente todos sabemos quando realizamos um ato que prejudicou outras pessoas e quando este foi benéfico, esta é base de nossa moralidade.

Larvas de vespas parasitoides devorando uma larva de borboleta de dentro para fora.





domingo, 28 de junho de 2015

Preconceito e igualdade


Autora: Monica Piovesan

De acordo com o dicionário, preconceito é definido como opinião ou conceito formado antes de obter o conhecimento adequado acerca de determinado assunto. Pode ser definido também como opinião ou sentimento desfavorável, concebido independente da experiência ou da razão. Ainda, em sociologia, é a "atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos". É nessa última definição que esse texto estará focado. Nesse sentido, observa-se que nenhum tipo de preconceito é mais importante que outro e todos eles envolvem algo em comum, o sofrimento das pessoas ou geralmente, de pequenos grupos de pessoas.
Geralmente quando um desses grupos minoritários alcança algum direito, garantido por lei, existe a reação de pessoas preconceituosas com várias justificativas para invalidar essa conquista. Recentemente nos EUA o casamento gay foi aprovado, certamente um enorme passo em direção à tolerância e a igualdade. Esse deveria ser motivo de comemoração, afinal, por que devo me intrometer na felicidade dos outros, sendo que independente da forma de AMOR, não está fazendo mal nenhum para outros seres vivos?
Justificativas contrárias a essa questão foram desde religiosas até apelo à fome de pessoas ou outros animais, abandonados nas ruas ou em países pobres. Quanto às justificativas religiosas, vale ressaltar que muitas coisas escritas nos livros considerados sagrados estão ultrapassadas e são totalmente desumanas. A título de exemplo, se considerar a união de duas pessoas do mesmo sexo errada perante os olhos de deus, poderíamos considerar a escravidão como algo bom, pois ambos os assuntos possuem respaldo na Bíblia. Respectivamente Levítico 18:22 “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é.”e Levítico 25:46 “Deixá-los-eis por herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam plenamente como escravos perpétuos. Mas, quanto a vossos irmãos, os israelitas, não dominareis com rigor uns sobre os outros”.
Com relação à questão da fome, sabe-se que é de extrema importância, porém esta não depende apenas da empatia para resolução. Envolve um sistema econômico baseado na má distribuição de renda e desigualdade social, onde empresas e governos detêm riquezas que não são distribuídas igualmente entre os países.
Ao longo do texto a palavra empatia aparece, mas o que ela significa? Empatia nada mais é do que a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir e pensar da mesma forma como ela agiria nas mesmas circunstâncias. Então, não é preciso ser negro para lutar contra o racismo, não é preciso ser mulher para defender igualdade de direito e deveres entre os gêneros, não é preciso acreditar ou desacreditar em uma (ou várias divindades) para defender um estado laico, não é preciso ser índio para perceber como as terras histórica e tradicionalmente ocupadas por estes povos estão sendo degradadas. Finalmente, não é preciso ser gay para aceitar qualquer forma de amor. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Déjà vu, neurologia e a falácia do sobrenatural

Autor: Mario Arthur Favretto


A grande maioria das pessoas já experimentou em alguma parte da sua vida uma sensação de que algo que ocorreu em um certo momento já havia acontecido antes ou de que ela já tinha visto aquilo antes em outra ocasião e o momento seria apenas uma mera repetição. Comumente esta sensação é denominada de “déjà vu” do francês, e significa “já visto” ou “já foi visto”. Porém a maioria das pessoas, por falta de um aprofundamento no conhecimento científico e, às vezes, por não saber onde encontrar informações confiáveis sobre o assunto, prefere aceitar a ideia de que isto seria alguma forma de ocorrência sobrenatural.
Como sempre as pessoas parecem querer encontrar o máximo possível de confirmações para suas crenças e anseios pela existência do sobrenatural, muito provavelmente derivado do medo da morte e de uma negação de que a vida possui um fim. Portanto, o déjà vu acaba por também ser usado para estas confirmações, com alguns grupos religiosos-místicos e alguns pseudocientíficos afirmando que a sensação de déjà vu é realmente algo que já ocorreu, mas em vidas passadas ou que são poderes de telepatia. Assim, para estes grupos, tal fenômeno neurológico seria uma confirmação de seus anseios pelo sobrenatural.
Porém, a ciência é mais bela do que o sobrenatural, que longe de ser uma resposta é apenas um consolo. Dizer que isto é fruto de vidas passadas e do sobrenatural traz mais perguntas do que respostas: existe uma alma? Se nossas memórias são armazenadas de forma bioquímica no cérebro, como podem interagir com algo imaterial e depois que a pessoa se decompôs em uma vida passada, voltar a agir novamente com a matéria de seu corpo atual? (Não vale dizer que é energia, pois energia é algo físico, não imaterial, é troca de elétrons e modificações de substâncias materiais). Onde estavam essas memórias, suspensas no ar? Se as memórias de vidas passadas ficam suspensas em um mundo paralelo para depois voltarem em outras vidas, por que uma pessoa com Alzheimer perde-as completamente? Oras, porque memórias são coisas físicas armazenadas bioquimicamente no cérebro e não coisas sobrenaturais.
Nossos humildes cérebros de símios foram moldados ao longo da evolução e como esta não produz a completa perfeição, nossos cérebros possuem falhas. O que ocorre nos momentos de déjà vu é que, provavelmente, o cérebro acessa as memórias imediatamente após “arquivá-las”, uma falha de comunicação, criando a sensação de que o fato que está ocorrendo é uma repetição. Estas ocorrências também podem ser induzidas no cérebro por estimulação com eletrodos no hipocampo e na amígdala cerebral, além de serem mais comuns em pessoas com certos tipos de epilepsia no lobo temporal do cérebro ou certos tipos de desordens psiquiátricas (Bartolomei et al., 2004; Wild, 2005).
Considerando, por exemplo, o hipocampo, ao longo do desenvolvimento do ser humano até atingir a maturidade ele é muito sensível a efeitos ambientais (ansiedade, estresse) e influências fisiológicas, sofrendo danos com efeitos de convulsões e inflamações ou de estresse psicossocial e privação de sono durante o desenvolvimento infantil. Assim, como esta região cerebral tem um papel fundamental na aquisição de memórias, situações como estas que afetam seu funcionamento ou desenvolvimento podem resultar em falhas na comunicação dos neurônios, ocasionando a sensação de déjà vu (Wild, 2005; Brázbil et al., 2012). Tanto que algumas pessoas podem apresentar disfunções neste funcionamento neuronal e passar de meses a anos tendo sensações constantes de déjà vu (Akgül et al., 2013; ver site nas referências).
O déjà vu não é um fenômeno sobrenatural, é um fenômeno físico, ocorre na comunicação entre neurônios. Indo mais além, podemos considerar que a crença da origem sobrenatural deste fenômeno, longe de ser benéfica e consoladora, pode ocultar problemas e doenças neurológicas ou outros fatores relacionados à vida cotidiana da pessoa que podem estar implicando na ocorrência deste problema. Eventos isolados de déjà vu podem ser uma simples disfunção corriqueira no funcionamento do cérebro, compatível com uma neuropsiquiatria normal, mas sua constância elevada pode implicar em causas mais sérias que necessitam de tratamento e auxílio médico (Wild, 2005). Fato que não poderia ser constatado se nós permanecêssemos na crença sobrenatural.

Referências
Akgül, S.; Öksüz-Kanbur, N.; Turanlı, Güzide. 2013. Persistent déjà vu associated with temporal lobe epilepsy in an adolescent. The Turkish Journal of Pediatrics 55: 552-554.
Bartolomei, F.; Barbeau, E.; Gavaret, M.; Guye, M.; McGonigal, A.; Régis, J.; Chauvel, P. 2004. Cortical stimulation study of the role of rhinal cortex in déjà vu and reminiscence of memories. Neurology 63: 858-864.
Brázdil, M.; Marecek, R.; Urbánek, T.; Kaspárek, T.; Mikl, M.; Rektor, I.; Zeman, A. 2012. Unveiling the mystery of déjà vu: the structural anamoty of déjà vu. Cortex 48(9): 1240-1243.
Wild, E. 2005. Déjà vu in neurology. Journal of Neurology 252: 1-7.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A farsa dos sucos Detox e os riscos da fitoterapia


Autor: Mario Arthur Favretto


Recentemente ganhou popularidade em diferentes mídias os chamados sucos “detox” que supostamente podem eliminar as toxinas de seu corpo, por serem compostos de diferentes partes de vegetais (frutos, folhas, raízes, etc). Há mais tempo temos a constante presença da utilização de produtos fitoterápicos, extratos alcoólicos de plantas ou chás. Ambos partindo do princípio de que tudo que é natural, ou seja, se não foi manipulado pelo homem, é saudável. Apenas por este aspecto as ideias já parecem ser deturpadas, pois só pelo fato de um produto ser natural, isto não significa que ele seja saudável. A natureza possui muitas guerras, e muitas delas são guerras químicas, ou você se arriscaria a comer qualquer cogumelo que aparecesse em sua frente apenas por ser algo natural? Ou se deixar ser picado por uma serpente, por ela ser natural?
Caso você não saiba, nosso organismo possui órgãos moldados ao longo da evolução para realizar a função de desintoxicar o organismo. Isso mesmo! O fígado e os rins. O primeiro destrói diversas substâncias presentes no sangue, metabolizando-as em substâncias mais simples ou eliminando-as, como o álcool originário de bebidas. Enquanto os rins filtram o sangue, eliminando diversas substâncias tóxicas originadas pelo metabolismo, como, por exemplo, a ureia. Desta forma, se a pessoa já absorveu na digestão substâncias tóxicas, terá que contar quase exclusivamente com o funcionamento de seus órgãos para eliminá-las.
Um suco de vegetais não poderá ajudá-la. Em casos de intoxicações graves por ingestão de certas substâncias, se não se passaram muitas horas, pode ser utilizado o carvão ativado, que possui alta porosidade, e assim, pode adsorver as substâncias tóxicas quando elas ainda estão no sistema digestório, reduzindo a quantidade que será absorvida pelo organismo. E por que os sucos não servem para desintoxicação?
Plantas são seres vivos que não têm como se deslocar, como fugir ou lutar contra seus predadores, assim para se manter vivas muitas espécies foram selecionadas ao longo da evolução de forma a produzir metabólitos secundários, substâncias que não estão diretamente ligadas ao crescimento e reprodução das plantas. Mas que podem apresentar toxicidade e assim prejudicar animais herbívoros que tentem se alimentar delas. Por exemplo, qual o benefício de uma planta, como a couve ou a alface (ambas usadas em sucos detox) em se deixar ser devorada por herbívoros? Ainda mais deixar suas folhas, das quais elas dependem para realizar a fotossíntese, serem prejudicadas por um animal tentando se aproveitar dela. Como solução, variedades destas plantas que possuem maior quantidade de toxinas conseguem ter maior sucesso reprodutivo e, em consequência, aumentar os genes da produção de toxinas nas populações da espécie.
Ao longo de milhares de anos os seres humanos vêm realizando seleção artificial de forma a obter variedades vegetais mais palatáveis, porém ainda hoje temos plantas que ainda possuem toxinas contra herbivoria. Muitas delas são vegetais com gostos amargos, como agrião e rúcula. E até mesmo essa percepção de gosto amargo pode variar conforme a pessoa, se crescemos ingerindo estes vegetais com toxinas, nosso fígado pode acostumar-se a eliminar estas substâncias de nosso organismo. Enquanto para outras pessoas não. É provavelmente por este motivo que o brócolis pode parecer mais ou menos amargo dependendo da pessoa e da capacidade de desintoxicação de seu fígado (Nesse & Williams, 1997)! No caso deste vegetal, a presença de polifenois e taninos podem prejudicar as mucosas intestinais e também reduzir a absorção de certos nutrientes (Santos, 2006). Ou seja, os vegetais não realizam a desintoxicação, nossos órgãos sim.
Devemos ressaltar também que a ingestão de toxinas vegetais ocorre não apenas na alimentação, mas também por meio de remédios fitoterápicos, pois estes também lidam com os metabólitos secundários de plantas, sem, no entanto, isolá-los. Ou seja, assim como você poderá ingerir uma substância com potencial terapêutico, estará ingerindo uma dezena de outras que podem prejudicar ainda mais o seu organismo. Por exemplo, o uso de chás de flores ou folhas Passiflora (maracujás) para fins sedativos e calmantes resulta na ingestão de diversos alcaloides e flavonoides, e até de cianeto, dependendo a espécie deste gênero, resultando em efeitos adversos cardiovasculares e gastrointestinais. Outra planta, Plantago ovata é indicada para prisão de ventre, emagrecimento e diabetes, porém seu uso está associado com o risco de causar obstrução esofágica. O famoso chá de ginseng Panax ginseng pode ocasionar sangramento vaginal, alteração do estado mental, hipertensão, insônia e diarreias (Turolla & Nascimento, 2006; Carvalho et al., 2011).
No caso da ingestão de vegetais para alimentação, muitas toxinas podem ser eliminadas pelo cozimento, que ocasiona desnaturação destas substâncias e a quantidade de diversas toxinas também foi reduzida por meio de seleção artificial, porém muitas outras ainda assim permanecem. Já no caso da fitoterapia, a ingestão de chás e remédios que não passaram por teste de toxicidade implica na ingestão de uma bateria de toxinas que nem mesmo imaginamos os males que podem ocasionar. Desta forma, demonstra-se que sucos ditos “detox” não realizam nenhuma função de desintoxicação, pois os vegetais naturalmente possuem substâncias para defesa contra herbivoria e que podem nos prejudicar. Se quisermos um melhor funcionamento de nosso organismo, o melhor é evitar outras substâncias ainda mais tóxicas como excesso de bebidas alcoólicas, que podem resultar na inutilização de diversas células do fígado. E assim, dificultar seu funcionamento nos processos de desintoxicação por parte de substâncias ingeridas em alimentos essenciais como os próprios vegetais que apesar de trazerem benefícios também trazem um preço a se pagar pela sua ingestão.

Referências
Carvalho, F.K.L.; Medeiros, R.M.T.; Araújo, J.A.S.; Riet-Correa, F. 2011. Intoxicação experimental por Passiflora foetidae (Passifloraceae) em caprinos. Pesquisa Veterinária Brasileira 31(6): 477-481.
Nesse, R.M.; Williams, G.C. 1997. Por que adoecemos: a nova ciência da medicina darwinista. Campus/Elsevier. 287p.
Santos, M.A.T. 2006. Efeito do cozimento sobre alguns fatores antinutricionais em folhas de brócolis, couve-flor e couve. Ciência e Tecnologia de Alimentos 30(2): 294-301.
Turolla, M.S.R.; Nascimento, E.S. 2006. Informações toxicológicas de alguns fitoterápicos utilizados no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas 42(2): 289-306.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Duplipensar no cotidiano

Por: Elton Orlandin

No livro 1984, George Orwell criou a palavra duplipensar para representar a crença em duas ideias incompatíveis entre si. Essa forma inconsistente de lidar com pensamentos foi descrita por Orwell como “saber e não saber; estar consciente de sua completa sinceridade ao contar mentiras cuidadosamente construídas; defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e mesmo assim crer em ambas; usar a lógica contra a lógica; repudiar a moralidade e ao mesmo tempo apropriar-se dela. Esquecer-se de qualquer fato que tornou-se inconveniente e, quando ele se torna novamente necessário, recuperá-lo do esquecimento apenas enquanto for útil. Negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo levar em consideração a realidade já negada”.
George Orwell exemplifica o duplipensar quando descreve o trabalho dos funcionários do Departamento de Arquivo do Ministério da Verdade, que possuíam como tarefa a alteração de documentos históricos, e que ao mesmo tempo acreditavam na veracidade histórica dos documentos falsificados. Ou ainda quando o personagem Winston Smith é forçado a crer que 2+2=5.
O duplipensar também pode ser entendido como ausência de dissonância cognitiva perante duas ideias ou crenças incompatíveis. Quando algum conflito cria certo desconforto na pessoa, a reação normal é procurar mudar uma das duas crenças, ou até mesmo ambas para torná-las mais compatíveis entre si. A reação anômala é o duplipensar. A pessoa que duplipensa sente-se perfeitamente confortável ao acreditar simultaneamente em duas ideias totalmente contraditórias e incompatíveis entre si.
Pode se constatar o duplipensar em muitas áreas da atividade intelectual, no discurso pseudocientífico, em ideologias políticas, nas propagandas e em grande escala na essência do pensamento religioso.
O duplipensar está inserido nas propagandas, principalmente naquelas destinadas à venda de drogas lícitas ao mostrar jovens saudáveis fumando e bebendo, com forte apelo sexual. Quando sabe-se que tanto o cigarro  quanto o álcool provocam vários problemas à saúde, prejudicando inclusive o desempenho sexual.
No discurso pseudocientífico o duplipensar aparece quando o misticismo, proveniente de crenças religiosas se reveste de partes do discurso científico, descartando o que não está de acordo com a crença. Procurando tornar ciência, algo que não se utiliza dos métodos científicos.
Nas ideologias políticas o duplipensar aparece quando se tenta apagar a história, ou revesti-la de fatos tendenciosos, valorizando mais esta ou aquela figura, sem analisar todo o processo histórico, manipulando desta forma o povo alheio aos acontecimentos reais. Ou ainda ao inverter os papéis na democracia, tirando o poder do povo e dando poder àqueles que foram eleitos, transformando servidos em servidores.
Porém, é na religião que o duplipensar aparece descaradamente e com mais força. Os religiosos afirmam que os desígnios de deus estão muito além da compreensão humana. E ao mesmo tempo afirmam que conhecem detalhes, os desejos, as ordens e os desígnios desse deus. Afirmam que a fé não depende de evidências, e ao mesmo tempo aponta para fatos do mundo real querendo obter evidências que apoiem essa fé. Renegam a razão, afirmando que suas crenças precisam apenas de fé. Mas tentam convencer e convencer-se através de raciocínios e argumentos invocando a lógica.
Afirmam que os milhares de deuses que já existiram na história humana são diferentes representações e aspectos de um só deus e ao mesmo tempo convivem com o fato de que esses deuses são muitas vezes incompatíveis entre si. Afirmam ainda que seus livros sagrados são a representação de um deus de infinita inteligência e sabedoria e ao mesmo tempo convivem com uma enorme quantidade de incoerências contidas nesses livros.
Muitos religiosos condenam certas disciplinas biológicas, e ao mesmo tempo fazem uso diário de remédios que só poderiam ter sido desenvolvidos e testados com as descobertas e critérios destas disciplinas. Creem que um deus de suprema inteligência e poder lhes deixou uma mensagem importantíssima, mas por sua gritante falta de clareza, precisão e coerência essa mensagem precisa ser decifrada com a ajuda de interpretes humanos. Preferem ignorar que um deus de suprema inteligência e poder, teria produzido um texto de suprema clareza, precisão e coerência. Um texto que dispensasse intérpretes autonomeados.
O debate com pessoas que duplipensam é cansativo, dispendioso, pois em suma o duplipensamento requer certo grau de fanatismo, o que torna o duplipensador cego aos argumentos apresentados. Isso causa irritação naqueles que percebem as dissonâncias cognitivas que o duplipensador não percebe, ou finge não perceber. Essa confortável convivência com as incoerências é uma característica cognitiva daqueles que duplipensam. Muitas pessoas realmente conseguem se sentir confortável, acreditando simultaneamente em duas ideias conflitantes, enquanto outras não.

Referências:

Chomsky, N. 2003. Contendo a democracia. Ed. Record. 518p.

Diamond, J. 2011. O terceiro chipanzé. Ed. Record. 432p.

Harris, S. 2007. Carta a uma Nação Cristã. Ed. Companhia das letras. 96p.

Orwell, G. 2009. 1984. Ed. Companhia das Letras. 414p.

Sagan, C. 2006. O mundo assombrado pelos demônios. A ciência vista como uma vela no escuro. Ed. Companhia de bolso. 512p.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ciência, pensamento crítico e crenças

Autor: Mario Arthur Favretto


É comum ocorrer críticas a certos aspectos da Ciência, em especial seu ceticismo diante de certos eventos sobrenaturais e extraordinários citando certos pesquisadores de renome, possuidores de títulos de doutores e de grande quantidade de publicações em certas áreas do conhecimento, que acreditam nestes supostos eventos como verdades. Como se o fato de uma pessoa ter renome ou possuir e compartilhar de certas crenças com outras pessoas, tornassem estas verdadeiras.
Neste quesito esbarra-se no que é chamado de falácia da autoridade, abordada por Carl Sagan em seu livro O Mundo Assombrado pelos Demônios. Essa falácia (um raciocínio errado com aparência de verdadeiro) utiliza-se de apelos para autoridades em certas áreas, como por exemplo, se Einstein, que foi um grande físico, acreditava em evento A, logo esse evento deve ser verdadeiro. Porém, ao fazerem tais afirmações, especialmente relacionadas a coisas sobrenaturais e pseudocientíficas (e.g. homeopatia, heiki, chakras e afins), as pessoas não compreendem que o fato de alguém acreditar ou não em algo, ou de muitas pessoas, acreditarem ou não em algo, não torna isto verdadeiro.
Independente de a pessoa ter obtido ou não conhecimento em mais de uma área do saber, nossos cérebros ainda são sujeitos a falhas, por isso a Ciência utiliza-se de ferramentas como a experimentação, a comparação, a análise e descrição, e também da estatística, para tentar chegar o mais próximo possível de explicações da realidade. Pois se permanecêssemos apenas nos vislumbres imaginários, teríamos uma ampla gama de diferentes opiniões, todas podendo ser falhas devido a ilusões que o cérebro pode sofrer na tentativa de entender a realidade apenas numa visão pessoal e interna.
Por exemplo, uma maior quantidade de dopamina em certas regiões específicas do cérebro pode levar as pessoas a perceberem padrões que não existem no mundo, culminando em níveis extremos em casos de esquizofrenia quando há uma completa ruptura da realidade e a pessoa enxerga padrões completamente inexistentes. Em outros casos, níveis atenuados de dopamina podem influenciar as crenças das pessoas no sobrenatural e assim torná-las mais religiosas, enquanto uma redução deste neurotransmissor pode tornar a pessoa cética em relação ao sobrenatural e a divindades, não vendo mais os padrões inexistentes, ou seja, os agentes externos ao mundo visível. Assim, medicamentos e diferentes situações de vida (e.g. estresse), podem influenciar na quantidade de neurotransmissores em nosso cérebro e alterar nossa predisposição a certas crenças.
Dessa mesma forma estão predispostas autoridades, líderes religiosos e científicos, eles também são humanos, também possuem cérebros com a mesma fisiologia e assim estão sujeitos às mesmas falhas. Estas só podem ser evitadas por meio do cultivo do pensamento crítico, quando analisamos de forma efetiva as evidências que indicam um determinado fato, independente de terem sido proclamadas por uma autoridade ou de ser simplesmente propagada por senso comum. O pensamento crítico é um cultivo de um ceticismo sadio, onde nos tornamos detetives tentando entender o mundo por meio de toda uma cacofonia de crenças e superstições, ordens de autoridades e senso comum, que inundam nossas mentes com informações contraditórias, fazendo que precisemos separar o joio do trigo.
E isto só pode ser realizado quando tentamos apaziguar nossos desejos de sobrenatural ou certas crenças, e passamos a buscar entender realmente a realidade, sem querer ver fadas por todos os lados. As pessoas difundem suas crenças na expectativa de que quanto mais pessoas acreditem maiores serão as chances de que ela seja verdadeira e se deleitam quando uma suposta autoridade aceita essas mesmas crenças e exerce sua influência sobre os demais. Porém, tais desejos e autoridades não podem alterar a realidade, ela continuará a ser o que é, e nossa melhor forma de tentar entendê-la é pela Ciência e com o arsenal proposto por sua metodologia, doses de ceticismo, pensamento crítico, experimentação, análise, descrição, comparação de dados e observações, e estatística.

Referências:
Brancão, M.L. 2004. As bases biológicas do comportamento: introdução à neurociência. Ed. Gráfica Pedagógica Universitária. 244p.
Krummenacher, P., Mohr, C., Hacker, H., Brugger, P. 2009. Dopamine, paranormal belief, and the detection of meaningful stimuli. Journal of Cognitive Neuroscience 22(8): 1670-1681.
Shermer, M. 2012. Cérebro e Crença. JSN Editora. 391p.
Sagan, C. 2006. O mundo assombrado pelos demônios. Ed. Companhia de Bolso. 512p.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Um diálogo sobre Ciência e Religião

Autor: Mario Arthur Favretto

Este texto tem em sua função analisar o aspecto negativo que por vezes a utilização da Ciência para combater a Religião pode ter, onde ao invés de uma aproximação do conhecimento cientifico acaba-se por afastar as pessoas do mesmo. Isto gera situações em que se espalham ainda mais pseudociências e crendices prejudiciais tanto para a Ciência quanto para as Religiões mais tolerantes em relação a conhecimentos divergentes de suas bases dogmáticas.
A utilização da Ciência para a comprovação da não existência de divindades criadas pelos humanos, principalmente por ateus militantes, acaba gerando uma imagem popular distorcida da Ciência, onde esta passa a ser vista como uma inimiga de qualquer manifestação religiosa. Fato que não possui uma completa veracidade, talvez o aspecto mais conflituoso seja que a Ciência implica que certos aspectos dos livros supostamente sagrados estejam errados, mas não na inexistência de uma divindade em si. Considerando esta numa visão panteísta ou deísta, e não em uma divindade que interfere no mundo em resposta a pedidos, desejos e orações humanas.
Vamos pegar como exemplo inicial a teoria do Big Bang, atualmente tão combatida por religiosos, tal teoria implica na origem do Universo a partir do nada. É um fato curioso essa briga atual, pois inicialmente quem não gostou desta teoria foram os físicos e astrônomos. A teoria do Big Bang, também chamada inicialmente de hipótese do átomo primordial, foi desenvolvida pelo padre católico, astrônomo e físico Georges Lemaître, e por que os demais pesquisadores não apreciaram essa hipótese? Oras, pois se o Universo teve um momento inicial de surgimento, ele pode ter surgido do nada como pode ter surgido de uma divindade, por isso os demais pesquisadores preferiam as hipóteses que implicavam que o Universo era eterno, sem um começo e sem um fim.
Mas vejam que mesmo com essa resistência inicial, com o aumento de acúmulo de dados e pesquisas, a teoria do Big Bang acabou tendo uma melhor fundamentação e como os dados analisados demonstraram a veracidade desta ocorrência, a Ciência passou a aceitar este corpo teórico. Porém, os motivos que levam atualmente os religiosos a desgostarem dessa teoria, são incompreensíveis, pois muitos livros supostamente sagrados mencionam um momento de criação do Universo. Havendo, é claro, apenas divergências em relação ao tempo transcorrido entre o surgimento do Universo e vida.
Por que a Ciência então mesmo tendo aceitado uma criação para o Universo não aceitou plenamente junto com este fato a existência de uma divindade? Porque isto não foi demonstrado pelos dados obtidos, sabe-se que houve um momento de criação, mas não se sabe o que havia antes dele. E também pelo fato de que, é melhor manter a dúvida do que fazer afirmações errôneas sobre certos aspectos do Universo que ainda não podemos obter dados. E por quê? Porque se respondermos que o Universo veio de uma divindade, isso implicará no surgimento de mais perguntas, do que de respostas. Se uma divindade criou tudo, de onde surgiu essa divindade? Quem foi que criou a divindade? Se a divindade veio do nada, porque o Universo não pode vir do nada? Se a divindade pode ser eterna, por que o Universo ou o Multiverso não podem? Mantém-se então a incerteza.
Nosso segundo exemplo será a Evolução. Neste fato, temos também o mesmo problema anterior, a Evolução não implica na inexistência de uma divindade criadora, mas sim na questão de os livros supostamente sagrados estarem errados. Vamos por alguns momentos imaginar o seguinte, um divindade gera o universo num experimento próprio para ver qual a probabilidade de que um planeta entre milhares ou milhões poderá gerar vida, não é uma possibilidade? Ou vejamos da seguinte forma, a divindade acompanhou o desenvolvimento do Universo e interferiu para o surgimento da vida em algum lugar específico, porém vendo que este planeta é instável, dinâmico, com constantes mudanças, por que criaria espécies prontas e fixas? Para ter que ficar o tempo todo interferindo no andamento da vida? Não seria mais sensato criar espécies que sofram variações a cada geração e que assim poderiam estar em constante modificação e adaptação diante das alterações que ocorrem neste planeta? Assim elimina-se a necessidade da própria divindade ter que interferir a todo o momento em sua criação, pois ela mesma há de modificar-se ao longo do tempo e tornar-se adaptada diante das novas condições ambientes que surgem.

Assim percebemos, mesmo que rápida e superficialmente, que as duas áreas mais conflitantes entre Ciência e Religião não são mutuamente excludentes. É possível a existência de uma quimera entre ambos, não sei ao certo ainda se positiva ou negativa. Porém há esperança para a conciliação entre estas duas áreas, mantendo o pleno conhecimento científico, sem excluir uma ideia de possibilidade de divindade. O que realmente a Ciência implica é em tornar errônea uma interpretação literal dos mitos de criações religiosos, e possivelmente também, na impossibilidade de existência de uma divindade que interage com sua criação diante de qualquer aflição humana. Focando-se então numa visão panteísta/deísta, com ausência de certas manifestações sobrenaturais e pseudocientíficas propagadas por diversas mídias atualmente.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Um planeta instável


Autor: Mario Arthur Favretto

A superfície do planeta Terra não é estável e sempre ocorrem mudanças. Todos os anos é possível observar notícias sobre terremotos, maremotos e vulcões que entram em erupção. Há também eventos atmosféricos que provocam alterações na superfície, como furacões e enchentes. Estes eventos são um reflexo e um lembrete constante de que nosso planeta não é estável; a natureza é o oposto, extremamente dinâmica. Algumas dessas mudanças influenciam continentes inteiros, como é o caso da deriva continental. 
Questionamentos acerca da estabilidade e imutabilidade dos continentes foram feitos ao longo dos séculos por diversos geógrafos que notaram que as costas de diversos continentes poderiam encaixar-se umas nas outras, conforme se pode notar em um mapa. Porém, quem primeiro realizou estudos aprofundados para demonstrar estes fatos foi Alfred Wegener, com sua obra publicada em 1912, A Origem dos Continentes e Oceanos, que demonstrou que os continentes deveriam ser separados em placas tectônicas. Apesar disso, ele não demonstrou o que exatamente impulsionava a movimentação dos continentes (Bryson, 2005).

Alfred Wegener. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1944, o geólogo Arthur Holmes com a obra Principles of physical geology, demonstrou que o aquecimento radioativo gerado pelo núcleo da Terra, poderia gerar correntes de convecção nas camadas do manto (uma camada de estrutura da Terra localizada abaixo da superfície/crosta terrestre), assim influenciando a crosta terrestre e fazendo-a se mover (Bryson, 2005). Com toda essa movimentação a crosta terrestre acabou ficando dividida em diferentes partes, denominadas placas tectônicas. Com essa repartição nos pontos de encontro dessas placas pode ocorrer intensa atividade sísmica e vulcânica, devido à sua fragilidade.
Desta forma, no encontro de algumas placas, pode ocorrer, por pressão interna das correntes de convecção, um constante derramamento de magma, que ao se solidificar, auxilia a criar mais pressão que acaba por empurrar as placas tectônicas, fazendo-as se afastarem. Em outros pontos, uma placa tectônica pode estar sendo empurrada para cima de outra, com a de baixo sendo direcionada de volta para o manto. Esses movimentos podem ser lentos e constantes ou a pressão pode se acumular provocando um grande deslocamento da placa tectônica, semelhante ao observado no Japão com o maremoto de 2011, onde a principal ilha do país foi deslocada em 2,4 m para o leste e o eixo da Terra foi alterado em 10 cm (Shrivastava 2011). O maremoto e sismo que ocorreram no Oceano Índico em 2004, causaram uma movimentação na placa tectônica da Índia de até 20 m em alguns pontos, além de ter alterado a posição do Polo Norte em 2,5 cm e também a rotação da Terra (Walton 2005).
A placa que é empurrada para cima, com o acúmulo dessas alterações, pode acabar gerando grandes cadeias de montanhas, com eventuais deslocamentos que podem chegar a alguns metros durante eventos sísmicos, como Charles Darwin observou em sua viagem a bordo do Beagle quando visitava o Chile em 1835. Na ocasião ocorreu um grande terremoto, seguido de um maremoto, e que ocasionou a elevação de alguns pontos da costa. E na ilha de Santa Maria, localizado ao sul de Concepción (no Chile), conforme medições realizadas pelo capitão do Beagle, FitzRoy, a elevação da superfície chegou a 3 m (Keynes 2004, Darwin 2008, Darwin 2009).
Graças a essas alterações graduais que fósseis de moluscos marinhos podem ser encontrados no alto de montanhas, e conforme Darwin observou, em alguns locais os fósseis indicam que a crosta estava acima do nível do mar, tendo sido posteriormente submersa e novamente soerguida, havendo fósseis de moluscos marinhos e de árvores intercalados em diferentes camadas das rochas (Keynes 2004, Darwin 2008, Darwin 2009).
Outra implicação que demonstra a movimentação das placas tectônicas é que se os continentes permanecessem parados, todos os milhões de toneladas de matéria erodidas pelos rios e levadas aos oceanos anualmente (por exemplo, as 500 milhões de toneladas de cálcio), multiplicando-se por todos os milhões de anos que isto ocorre, deveria haver 20 km de sedimentos no fundo dos oceanos, fato que não ocorre (Bryson 2005). 
A questão é que os continentes se deslocam como uma esteira rolante, mas em geral lentamente. Em alguns casos, a partir do encontro de duas placas tectônicas, como ocorre no fundo do Oceano Atlântico em que se encontra uma cordilheira submersa, de norte a sul, eventualmente os picos desta cordilheira emergem, caso dos Açores e ilhas Canárias. No meio desta cadeia de montanhas localizada submersa no Oceano Atlântico há uma fenda, com até 20 km de largura e extensão de 19.000 km. Em algumas partes desta fenda o magma emerge e vai pressionando as camadas já solidificadas para as laterais e como indicam as datações realizadas, quanto mais próximas da fenda, mais recente é a rocha que emergiu do manto, e quanto mais distante, mais antiga (Bryson, 2005).
Multiplique-se estas alterações por milhões de anos, e o que temos são mudanças constantes na superfície terrestre, modificando os ambientes. Assim, para que as espécies sobrevivam, também precisam se modificar. Como muitas vezes a fauna e a flora são deslocadas junto com os continentes em suas movimentações ao longo de diferentes climas, acaba-se por criar um sistema natural de seleção. Aqueles indivíduos que possuem alguma característica que os torne mais aptos a sobreviverem e se reproduzirem diante das alterações ambientais, são os que passarão seu material genético adiante, mantendo sua “linhagem”, apesar das alterações que elas sofreram por influências genéticas e ambientais.

Referências:
Bryson, B. (2005) Breve história de quase tudo. São Paulo: Companhia das Letras.
Darwin, C. (2008) Viagem de um naturalista ao redor do mundo, v. 1. Porto Alegre: L&PM.
Darwin, C. (2009) Viagem de um naturalista ao redor do mundo, v. 2. Porto Alegre: L&PM.
Keynes, R.D. (2004) Aventuras e descobertas de Darwin a bordo do Beagle, 1832-1836. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Shrivastava, S. (2011) Earthquake shifts Japan islands and Earth axis. World Reporter. Disponível em: <http://www.theworldreporter.com/2011/03/earthquake-shifts-japan-islands-and.html> Acesso em: 17 de março de 2013.
Walton, M. (2005). Scientists: Sumatra quake longest ever recorded. CNN. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2005/TECH/science/05/19/sumatra.quake/index.html> Acesso em: 17 de março de 2013.