segunda-feira, 9 de maio de 2016

Vacinas e (ainda) o Desconhecimento Científico


Autor: Mario Arthur Favretto


Estima-se que do começo do século 20 até a década de 1970 cerca de 300 milhões de pessoas morreram de varíola, após diversas campanhas de vacinação essa doença foi erradicada do mundo e apenas um caso foi registrado após 1978 (Burton, 2002). Entretanto, sempre em épocas de vacinação ouvimos os velhos comentários em meio à população, que vacinas fazem mal, que são uma conspiração do governo para eliminar certos grupos da população.
Muito disso vem devido ao desconhecimento da população sobre a ciência e sobre biologia, neste caso, sobre o funcionamento das vacinas e sobre o próprio funcionamento do corpo humano. Alia-se a estas questões o fato de muitas pessoas não visualizarem mais casos de muitas das doenças para as quais elas são imunizadas, assim deixando de dar a devida importância às vacinas.
Mas como funcionam as vacinas? As vacinas são feitas com vírus ou bactérias mortos ou atenuados (enfraquecidos) e que assim não resultarão no desenvolvimento da doença nas pessoas que receberão a dose em seus corpos. Elas servem, dizendo de forma bem simples, para treinarmos o nosso sistema imunológico a lutar contra infecções causadas por vírus ou bactérias. Quando injetamos esse material em nosso organismo isto desencadeia uma reação de nosso sistema imunológico que vai “lutar” contra o material e durante esse processo vai fazer um reconhecimento e criar células especiais que vão memorizar como eram esses vírus e bactérias que foram injetados no corpo, mesmo eles estando mortos e/ou fragmentados (Burton, 2002; Sallusto et al., 2010).
Criada essa memória em nosso sistema imunológico, quando por algum infortúnio formos infectados com um vírus ou bactéria vivos, seja pelo vírus da gripe Myxovirus influenzae ou pela bactéria do tétano Clostridium tetani, nosso sistema imunológico reconhecerá o patógeno.  Esse reconhecimento será feito mais rapidamente e devido à memória imunológica também produzirá anticorpos de forma mais rápida e eficiente não permitindo que os patógenos se proliferem pelo corpo, evitando, dessa forma, o desenvolvimento da doença e seus sintomas (Burton, 2002; Sallusto et al., 2010).
Como injetamos um material estranho em nosso corpo, as vacinas podem resultar em efeitos adversos? Muitas pessoas acham que algumas vacinas (tríplice viral) poderiam causar autismo em crianças, porém essa crença não tem fundamento, mais de 20 estudos epidemiológicos realizados em diferentes países mostraram que elas não causam esse problema nas crianças, o autismo não é ocasionado por nenhuma reação do sistema imune (Gerber & Offit, 2009). O autismo é hereditário e uma de suas principais causas é genética, associada com questões ambientais e epigenéticas (Hall & Kelley, 2014).
Efeitos adversos sempre poderão ocorrer, mas possuem efeitos menores sobre o corpo da pessoa do que se ela adquirisse alguma doença que poderia ter evitado tomando uma vacina (Brasil, 2014). Afinal, todo medicamento que uma pessoa ingere pode resultar em efeitos adversos, desde uma “simples” aspirina (ácido acetilsalicílico), que, conforme a bula indica, em doses elevadas foi registrado que 10 a 20% dos pacientes tiveram náusea, vômito e dor gástrica, e hemorragias ocultas em 70% dos pacientes. Ou o paracetamol, que também conforme indica a bula, devido a sua hepatotoxicidade (ser tóxico para o fígado) em casos muito raros pode resultar em “êxito letal” (morte) e também reações de hipersensibilidade (erupções cutâneas, urticárias, eritema, etc.).
Ou a dipirona, que pode resultar em reações alérgicas e em casos raros em agranulocitose, uma redução dos glóbulos brancos do sangue, que em casos graves pode resultar no aparecimento de feridas em mucosas, no intestino, na garganta e na pele, representando risco de vida. Até mesmo os tão venerados remédios naturais podem resultar em diversas reações que colocam em risco a vida das pessoas (ver links de blogs nas referências: Favretto, 2015; Santos, 2016; Orlandin, 2016). Ou seja, riscos muitas vezes maiores do que os das próprias vacinas.
Porém no momento de dor e sofrimento não pensamos duas vezes em usar os remédios para melhorarmos nossa saúde independente de possíveis reações adversas, mas como as vacinas são para a prevenção, talvez a ausência de sofrimento e dor por doenças seja uma das motivações de resistência por parte das pessoas. Então se você é uma destas que não aprecia vacinas olhe para as fotos abaixo, muitas dessas fotos são de doenças para as quais tomamos vacinas para ficarmos imunizados. Aposto que muitas delas você nem imaginava como seriam.
Figura 1. Paciente sofrendo fortes espasmos musculares causados pelo tétano. Fonte: Charles Bell (1809).

Figura 2. Criança com sequela da poliomielite (paralisia infantil) em sua perna. Fonte: CDC (1994).

Figura 3. Paciente com varíola. Fonte: John Noble Jr – CDC (1967).


Figura 4. Criança com rubéola. Fonte: Jim Goodson – CDC (2014).
Figura 5. Criança com difteria. Fonte: Barbara Rice – CDC.

Após olhar as fotos, retornemos novamente ao ponto do não encontro com casos de pessoas doentes, isto nos remete a algo emocional, como as pessoas não veem mais o sofrimento causado por muitas dessas doenças, suponho que elas acabaram se esquecendo do mal que elas ocasionavam. Por exemplo, há muitas décadas que não temos mais casos de poliomielite no Brasil, e muitas outras doenças infantis possuem um número bastante reduzido de casos. É possível que essa aparente seguridade de ausência de doenças dê uma falsa impressão às pessoas de que estes males não retornarão.
No entanto, com o avanço de movimentos antivacina e da falta de elucidação sobre as vacinas, diversas pessoas podem começar a recusar este recurso, especialmente em épocas de mídias sociais em que teorias conspiratórias sem fundamento algum se espalham rapidamente. Levanto a hipótese de que se as campanhas de vacinação apresentassem de forma mais clara visualmente os sintomas das doenças, como nas fotos acima, é possível que mais pessoas se prontificassem a tomar vacinas. Simplesmente apresentar um grupo de sintomas abstratos e textos escritos para uma população que possui um elevado percentual de analfabetos funcionais e científicos pode não ser o bastante para manter o desempenho de campanhas de vacinação. Infelizmente, como muitos movimentos antivacina apelam para a emoção das pessoas, também resta para as ações pró-vacina não apenas mostrar os dados científicos, mas também fazer esse apelo. Afinal as pessoas se identificam e tem mais empatia com um indivíduo visível do que com números (Pinker, 2013), fato que pode resultar em melhores resultados de campanhas de imunização.

Referências
Brasil. 2014. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília: Ministério da Saúde. 250p.
Burton, D.R. 2002. Antibodies, viruses and vaccines. Nature Review, Immunology 2: 706-713.
Favretto, M.A. 2015. A farsa dos sucos Detox e os riscos da fitoterapia. Ciência & Liberdade, link http://cienciaeliberdade.blogspot.com.br/2015/06/a-farsa-dos-sucos-detox-e-os-riscos-da.html
Gerber, J.S.; Offit, P.A. 2009. Vaccines and autism: a tale of shifting hypotheses. Clinical Infectious Diseases 48: 456-461.
Hall, L.; Kelley, E. 2014. The contribution of epigenetic to understanding genetic factors in autism. Autism 18: 872-881.
Orlandin, E. 2016. Os perigos da ingestão de medicamentos naturais. Ciência & Liberdade, link http://cienciaeliberdade.blogspot.com.br/2016/05/os-perigos-da-ingestao-de-medicamentos.html
Pinker, S. 2013. Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras. 1087p.
Sallusto, F.; Lanzavecchia, A.; Araki, K.; Ahmed, R. 2010. From vaccines to memory and back. Immunity 33: 451-463.
Santos, E.B. 2016. É seguro beber suco verde (detox)?. Emagrecendo Cons(Ciência), link http://emagrecimentocomciencia.blogspot.com.br/2016/01/e-seguro-beber-suco-verde-detox.html

sexta-feira, 6 de maio de 2016

OS PERIGOS DA INGESTÃO DE MEDICAMENTOS NATURAIS


Autor: Elton Olandin

O apelo à natureza, ou falácia naturalista, é a crença de que o que é natural é bom. E o Argumentum ad Antiquitatem, é a falácia de afirmar de que algo é bom, ou verdadeiro só porque é antigo. Baseados nestas crenças milhões de pessoas em todo o mundo usam remédios a base de plantas (fitoterápicos), seguindo tradições originadas há milênios. No entanto, pesquisadores da Baylor College of Medicine e Stony Brook University, em artigo publicado no dia 25 de abril de 2016, na revista Science & Society, demonstram que a tradição do uso de ervas, não é garantia de segurança.

No artigo intitulado Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia (Riscos globais de remédios à base de plantas: lições de Aristolochia), Grollman e Marcus contam um pouco da história e do uso desta planta na medicina. Aristolochia é um gênero de planta com mais de 500 espécies pertencente a família Aristolochiaceae e possui distribuição mundial. A primeira descrição da planta foi feita na Grécia antiga, por um aluno de Aristóteles (371–287 AEC), tendo registros de seu uso em diferentes partes do mundo.

Os estudos e reconhecimento da toxicidade e carcinogenicidade da família a qual pertence esta planta só iniciaram a partir de 1990 quando 100 mulheres da Bélgica vieram a óbito depois de desenvolverem doença renal crônica. As investigações demonstraram que todas haviam passado por um regime de perda de peso, utilizando uma mistura de ervas usada na medicina tradicional chinesa. Dentre estas ervas, estava a Aristolochia.

Outro estudo demonstrou que Aristolochia clematitis era causadora de nefropatia em vilarejos de países da região dos Balcãs. Nesses vilarejos os moradores têm por costume moer sementes de A. clematitis misturado ao trigo. Os pesquisadores demonstraram que a ingestão de ácidos aristolóquicos presentes nesta família de planta, em conjunto com a suscetibilidade genética dos indivíduos podem levar a mutações no gene supressor tumoral p53, gene responsável por evitar a propagação de células defeituosas. Estudos também demostraram várias evidências da relação entre a ingestão de fitoterápicos contendo ácidos aristolóquicos e carcinomas uroteliais no Taiwan.

No Brasil a Aristolochia spp. é popularmente conhecidas por capitãozinho, cipó-jarrinha, papo-de-peru, cipó-mil-homens, milhomes, cipó-milome, papo-de-galo, sendo largamente utilizada na medicina popular. Uma pesquisa rápida no Google Acadêmico usando as palavras-chave etnobotânica e Aristolochia verificou a existência de dezenas de artigos, dissertações e teses, citando esse gênero como sendo largamente utilizado pela população, em praticamente todo o país. Também é encontrada facilmente a venda na internet, em vários sites “especializados” na venda de fitoterápicos. Dentre os usos mais comuns são citados: para auxiliar a digestão, falta de apetite, picada de cobra, com ação abortiva, na regulação das regras menstruais, febres, diarréias, convulsões epilépticas, histerias e reumatismo, diabete, nas gripes, infecções, mordidas de animais e para parar de fumar, no tratamento de doenças venéreas, pedra na vesícula, dispepsia, sinusite e dor de cabeça. Apesar de toda a problemática envolvendo o uso destas plantas, a maioria desses trabalhos focava apenas na sabedoria popular, e na importância deste conhecimento e não no efeito das substâncias químicas presentes na planta.

Além das pesquisas envolvendo Aristolochia spp., outros estudos demonstram a importância de maiores investigações a respeito do tema. Em editorial à revista European Journal of Clinical Pharmacology, Edzard Ernst (2006) chama a atenção para os perigos do uso excessivo de fitoterápicos. E em artigo de revisão na revista Clinical Medicine, Paul Posadzki, Leala Watson e Edzard Ernst (2013), analisaram os efeitos adversos de 50 espécies de plantas utilizadas como fitoterápicos, concluindo que todas possuíam algum efeito adverso em menor ou maior grau. Essas pesquisas demonstram que o conhecimento empírico baseado na tradição não deve ser usado como autoridade. E que a lição dos riscos para a saúde causados pelo uso de Aristolochia spp. deve levar os órgãos responsáveis a solicitarem mais investigação sobre a segurança e eficácia das plantas medicinais.



Aristolochia fimbriata Fonte da imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Aristolochia elegans  Fonte da Imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Referências:

ERNST, Edzard. Herbal medicines–they are popular, but are they also safe?.European Journal of Clinical Pharmacology, v. 62, n. 1, p. 1-2, 2006.

GROLLMAN, Arthur P.; MARCUS, Donald M. Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia. EMBO reports, v. 17, n. 5, p. 619-625, 2016.

POSADZKI, Paul; WATSON, Leala K.; ERNST, Edzard. Adverse effects of herbal medicines: an overview of systematic reviews. Clinical medicine, v. 13, n. 1, p. 7-12, 2013.