sexta-feira, 6 de maio de 2016

OS PERIGOS DA INGESTÃO DE MEDICAMENTOS NATURAIS


Autor: Elton Olandin

O apelo à natureza, ou falácia naturalista, é a crença de que o que é natural é bom. E o Argumentum ad Antiquitatem, é a falácia de afirmar de que algo é bom, ou verdadeiro só porque é antigo. Baseados nestas crenças milhões de pessoas em todo o mundo usam remédios a base de plantas (fitoterápicos), seguindo tradições originadas há milênios. No entanto, pesquisadores da Baylor College of Medicine e Stony Brook University, em artigo publicado no dia 25 de abril de 2016, na revista Science & Society, demonstram que a tradição do uso de ervas, não é garantia de segurança.

No artigo intitulado Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia (Riscos globais de remédios à base de plantas: lições de Aristolochia), Grollman e Marcus contam um pouco da história e do uso desta planta na medicina. Aristolochia é um gênero de planta com mais de 500 espécies pertencente a família Aristolochiaceae e possui distribuição mundial. A primeira descrição da planta foi feita na Grécia antiga, por um aluno de Aristóteles (371–287 AEC), tendo registros de seu uso em diferentes partes do mundo.

Os estudos e reconhecimento da toxicidade e carcinogenicidade da família a qual pertence esta planta só iniciaram a partir de 1990 quando 100 mulheres da Bélgica vieram a óbito depois de desenvolverem doença renal crônica. As investigações demonstraram que todas haviam passado por um regime de perda de peso, utilizando uma mistura de ervas usada na medicina tradicional chinesa. Dentre estas ervas, estava a Aristolochia.

Outro estudo demonstrou que Aristolochia clematitis era causadora de nefropatia em vilarejos de países da região dos Balcãs. Nesses vilarejos os moradores têm por costume moer sementes de A. clematitis misturado ao trigo. Os pesquisadores demonstraram que a ingestão de ácidos aristolóquicos presentes nesta família de planta, em conjunto com a suscetibilidade genética dos indivíduos podem levar a mutações no gene supressor tumoral p53, gene responsável por evitar a propagação de células defeituosas. Estudos também demostraram várias evidências da relação entre a ingestão de fitoterápicos contendo ácidos aristolóquicos e carcinomas uroteliais no Taiwan.

No Brasil a Aristolochia spp. é popularmente conhecidas por capitãozinho, cipó-jarrinha, papo-de-peru, cipó-mil-homens, milhomes, cipó-milome, papo-de-galo, sendo largamente utilizada na medicina popular. Uma pesquisa rápida no Google Acadêmico usando as palavras-chave etnobotânica e Aristolochia verificou a existência de dezenas de artigos, dissertações e teses, citando esse gênero como sendo largamente utilizado pela população, em praticamente todo o país. Também é encontrada facilmente a venda na internet, em vários sites “especializados” na venda de fitoterápicos. Dentre os usos mais comuns são citados: para auxiliar a digestão, falta de apetite, picada de cobra, com ação abortiva, na regulação das regras menstruais, febres, diarréias, convulsões epilépticas, histerias e reumatismo, diabete, nas gripes, infecções, mordidas de animais e para parar de fumar, no tratamento de doenças venéreas, pedra na vesícula, dispepsia, sinusite e dor de cabeça. Apesar de toda a problemática envolvendo o uso destas plantas, a maioria desses trabalhos focava apenas na sabedoria popular, e na importância deste conhecimento e não no efeito das substâncias químicas presentes na planta.

Além das pesquisas envolvendo Aristolochia spp., outros estudos demonstram a importância de maiores investigações a respeito do tema. Em editorial à revista European Journal of Clinical Pharmacology, Edzard Ernst (2006) chama a atenção para os perigos do uso excessivo de fitoterápicos. E em artigo de revisão na revista Clinical Medicine, Paul Posadzki, Leala Watson e Edzard Ernst (2013), analisaram os efeitos adversos de 50 espécies de plantas utilizadas como fitoterápicos, concluindo que todas possuíam algum efeito adverso em menor ou maior grau. Essas pesquisas demonstram que o conhecimento empírico baseado na tradição não deve ser usado como autoridade. E que a lição dos riscos para a saúde causados pelo uso de Aristolochia spp. deve levar os órgãos responsáveis a solicitarem mais investigação sobre a segurança e eficácia das plantas medicinais.



Aristolochia fimbriata Fonte da imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Aristolochia elegans  Fonte da Imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Referências:

ERNST, Edzard. Herbal medicines–they are popular, but are they also safe?.European Journal of Clinical Pharmacology, v. 62, n. 1, p. 1-2, 2006.

GROLLMAN, Arthur P.; MARCUS, Donald M. Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia. EMBO reports, v. 17, n. 5, p. 619-625, 2016.

POSADZKI, Paul; WATSON, Leala K.; ERNST, Edzard. Adverse effects of herbal medicines: an overview of systematic reviews. Clinical medicine, v. 13, n. 1, p. 7-12, 2013.

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