Uma
das coisas mais interessantes sobre movimentos sociais que adotam a
desobediência civil e protestos pacíficos é a forma como conseguem um grande
apoio populacional e como conseguem mudar a visão social. Grandes conquistas
foram feitas em meados do século vinte por meio desta forma de protesto. Ao
contrário dos grandes protestos revolucionários agitados e violentos que muitas
vezes acabam afastando apoiadores de movimentos sociais, com todos os seus
xingamentos e extrovertidos exaltados. As mudanças na sociedade precisam ser
graduais, passo a passo, para que as pessoas consigam mudar sua visão e seus
hábitos. Mudanças bruscas conseguem pouca aceitação, mas ações voltadas para a
introversão e introspecção conseguem gerar um ponto de virada mais efetivo.
Na
ciência brasileira temos esse problema atualmente, um afastamento social, as
pessoas deixam de se interessar pela ciência devido ao choque de realidade que
muitas vezes elas têm quando entram em contato com esse conhecimento. Pessoas
são movidas muito mais por sentimentos do que por racionalidade, são
impulsivas, instintivas, somos símios. Dessa forma, uma busca por aproximação
das pessoas para com a ciência deve focar não apenas no passar conhecimento,
mas tentar mastigar a realidade científica para que seja facilmente digerível
para quem não tem acesso a ela com facilidade.
Tomemos
como exemplo alguns movimentos sociais, no caso do feminismo, é possível
observar que integrantes do grupo Femen, apesar de lutarem por uma causa justa,
afastam muitas pessoas que poderiam ajudá-las. O extremismo torna difícil a
inserção das novas ideias no meio social. Xingamentos e palavra ofensivas em
pouco vão ajudar na conscientização popular. Enquanto uma pequena ação da
introvertida Rosa Parks, em desobedecer uma lei imoral, dizendo apenas um “não”
e realizando uma pequena ação em 1955, resultaram em um ponto de virada no
movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.
Podemos
exemplificar essa situação na necessidade de aproximação ciência-população, com
o caso de vacinas. Poderíamos abordar a situação explicando todo o processo de
funcionamento das vacinas e xingando aqueles que não querem vacinar. Ou podemos
apelar para o lado sentimental das pessoas, o lado que mais às afeta, mostrando
os danos que a falta de vacinação gera, as sequelas deixadas pelas crianças.
Atualmente as pessoas não veem mais os danos causados por muitas doenças. Que
foi o fato que aconteceu recentemente com o retorno do sarampo para o Brasil,
uma comoção de diversas pessoas devido às mortes de dezenas de crianças devido
ao descaso de seus pais.
E
quando há uma situação como essa, altamente sentimental, é que devemos focar na
intensificação da relação ciência-população. Estamos em um ponto em que não se
trata mais de provar quem está certo ou errado, primeiro, é necessário
demonstrar a importância da ciência, para após demonstrar como ela funciona e
em quais situações ela está correta. Uso de situações sentimentais propiciará a
geração de um vínculo do cidadão com a ciência. Os artigos científicos com
publicação avaliada por pares são uma necessidade formal da ciência para que
esta mantenha sua rigidez e eficácia, são parte essencial do método científico
para não desandar para os lados das crenças e superstições. Porém a ciência
brasileira precisa mostrar sua cara para a população, mostrar para as pessoas
sua importância no cotidiano de cada cidadão, mostrar para que ela serve, como
funciona, o que a diferencia das pseudo-ciências, em que ela melhora a
qualidade vida e a saúde de uma pessoa.
Recentemente
ganharam repercussão os cortes de verbas em instituições relacionadas à ciência
no Brasil, ao menos em alguns meios, considerando a falta de interesse da
população brasileira pelo assunto. Porém, há um problema mais profundo nesta
situação, algo que está além do recebimento de dinheiro do governo para pagar
bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado (ou financiamento de
pesquisa básica). Digo esses aspectos de bolsas, porque aqui a maior parte da
ciência é realizada em universidades. Porém essa situação criou no Brasil um
sistema que em última análise é insustentável em longo prazo.
Desde
a graduação alunos de áreas como, por exemplo, ciências biológicas são orientados
a seguirem carreira acadêmica; ao longo desse caminho é incutido na cabeça das
pessoas que as formações da pós-graduação abrirão portas de trabalho para elas.
Mais especificamente que após fazer mestrado e depois um doutorado terão uma
vaga como professor universitário esperando por elas. Nesse ponto já começa o
problema, considerando que para ser professor universitário é necessário ter
título de doutor, assim o mestrado torna-se apenas um meio termo, de dois anos
de vida em banho-maria. Ou para outros apenas como uma opção de ter alguma
renda durante dois anos a mais.
Percebe-se
pouca ligação em alguns cursos de graduação e o pós-formado, resultando em uma
leva de mão de obra com um diploma, mas que não atua em sua área de formação. Isso
resulta em difamação de alguns cursos por parte de seus alunos formados e
pessoas especializadas não atuantes. Muitos nem mesmo sabem como conseguir
emprego em sua área de formação ou iniciar um empreendimento ou ideia com o
conhecimento que adquiriu durante sua formação. Infelizmente isso parece ser um
reflexo da cultura que temos no Brasil, uma cultura de pouca iniciativa, onde
queremos receber tudo pronto do exterior, sendo a eterna colônia. Desta forma,
muitos optam por seguir a carreira acadêmica como forma de ter uma renda, assim
temos uma grande quantidade de pessoas nesse meio que apenas seguem o barco,
dois anos de mestrado, quatro de doutorado, renda garantida durante seis anos.
E após?
Infelizmente
não há vagas em todas as universidades para receber toda essa leva de doutores
como professores após sua obtenção do título. Para então atuarem na formação de
ainda mais mestres e doutores, que atuariam onde? Na universidade também,
criando um crescimento quase exponencial, de doutores se formando para serem
professores universitários, almejando formar mais doutores (pois muitos
professores-pesquisadores não apreciam orientar alunos de graduação devido à
pesquisa bastante básica que estes fazem). E o “após” que mencionei antes? Pós-doutorado,
bolsa após bolsa de pós-doutorado devido à falta de inserção no mercado de
trabalho. Quem acompanha concursos públicos para docentes em instituições
federais deve ter percebido nos últimos anos o grande aumento no número de
candidatos para essas vagas.
O
meio acadêmico precisa urgentemente mudar esta forma que se mantém, os
bolsistas viram mão de obra informal daqueles que já estão dentro do meio
acadêmico e não conseguem ter uma perspectiva de futuro profissional. Vejam,
por exemplo, as recentes notícias referente aos danos mentais gerados por este
meio acadêmico em muitas pessoas. A visão de bolsistas sendo formados como
futuros professores está ultrapassada, novos modelos devem ser adotados, se é
necessário manter a ciência brasileira funcionando, o que chamamos de
bolsistas, precisariam ser convertidos em pesquisadores/cientistas em si. Com
vínculo empregatício e tendo liberdade de atuarem em suas pesquisas ou nas
instituições em que forem trabalhar, não sendo apenas mão de obra de
professores e nem vagando no meio acadêmico de bolsa em bolsa sem uma
perspectiva de futuro. Sem férias, sem décimo terceiro, sem contribuição para
previdência social.
Porém,
há um ponto ainda mais nevrálgico que precisa ser tocado. Quando caminhoneiros
foram prejudicados com o recente aumento do preço do diesel, a população se
revoltou, saiu às ruas, pararam o país. Por que isso? Conhecem a realidade dos
caminhoneiros? Ou a gasolina afeta a todos havendo um ponto de interesse
particular e egoísta em usar os caminhoneiros como linha de frente para que
todos pudessem se aproveitar? Mas quando há situação que afeta a ciência
brasileira, quem se importa? Apenas aqueles já inseridos no meio ou alguns com
um pouco de senso de importância da ciência em si. Isso levanta uma importante
questão.
A
realidade de que não há apoio popular para ciência no Brasil. Isso em grande
parte é devido ao fato de a grande maioria dos pesquisadores ficarem presos em
suas torres aristocráticas sem divulgar o que ocorre por detrás das portas das
universidades e instituições de pesquisa. Divulgação apenas em internet alcança
apenas certo número de pessoas que sabe ao menos buscar as informações. Mas
como alcançar as grandes maiorias silenciosas? O dito “cidadão médio”? Como
demonstrar para este contribuinte que o dinheiro dos impostos dele está sendo
bem investido em ciência no seu país? Como demonstrar para estas pessoas que
suas vidas dependem da ciência básica e aplicada, tanto quanto sua rotina
depende de gasolina/diesel? Afinal, quem produziu os automóveis e seu
combustível, e toda tecnologia que eles possuem?
A
população precisa ter um respaldo e um entendimento do que ocorre em
instituições que realizam pesquisa científica, para que então possa realmente
haver um apoio da população para com a ciência. A maioria das pessoas que mora
em cidades com instituições de pesquisa ou universidades nem mesmo imagina o
que é feito nestes locais, acreditam que seja apenas um local para receber
diploma. Sem conhecer, não há como haver valorização.
Se
os pesquisadores brasileiros querem continuar recebendo verbas do governo,
precisam urgentemente conquistar o apoio populacional. Para acabar com essa
visão de Brasil colônia de que ciência e tecnologia de qualidade são apenas
importados, é necessário mostrar para a população o que está sendo criado aqui
mesmo. Claro que isso gera outros problemas: a aplicação desse conhecimento e
tecnologia daqui no cotidiano da população, sua inserção no meio comercial,
enquanto concorrente de ciência e tecnologia importante. Mas isso é assunto
para outro texto...
A vida é um sopro,
frágil e fraca, escapa de nós facilmente. Um ato ingênuo e ignorante destrói a
vida de uma pessoa. Pensamos que pelo fato de acordarmos todos os dias sequencialmente
ela assim continuará, nos iludimos com algumas frequências sequenciais.
Esgotamos nossas forças, sufocamos nossas criatividades e vontades, em prol de
um trabalho diário que a sociedade nos impõe, buscamos o além daquilo que
precisamos, desgastando nossos corpos e mentes, definhamos no envelhecimento
onde somos cavalos de visão fechada, culturalmente forçados a puxar o máximo de
carga, rodando sem sair do lugar. Partimos e retornamos ao mesmo ponto,
enquanto o tempo de vida escapa.
Afogamo-nos em mágoas,
intrigas e confusões que não levam a nada. Lidamos com pessoas fofoqueiras, que
buscam sempre “jogar lenha na fogueira, para ver o circo pegar fogo”.
Destroem-se os laços diários por comentários arrogantes, egoístas ou malévolos
de pessoas ingênuas, que não sabem que a vida não se resume ao trabalho e a
intrigas diárias. Nadamos em hipocrisia social, onde todos querem acusar os
erros dos outros, mas não enxergam os próprios erros. Esbravejam por todos os
cantos sobre o que é moral e certo, porém se esquecem de cuidar do mais
importante, suas próprias ações e pensamentos.
Pintura de Philippe de Champaigne (1650).
Deixamos de viver um
momento por ficarmos pensando em um real a mais que podemos ganhar, ansiamos
pelo dinheiro a mais para saciar nossa ganância e esquecemo-nos do tempo
presente. Pensamos demais no futuro, e esquecemos o presente, sendo que o
futuro pode nem mesmo chegar. Amanhã meu coração pode parar, dentro de alguns
minutos uma veia em meu cérebro pode estourar... a morte nos espreita sempre, e
pensarmos nela é uma lembrança da fragilidade e efemeridade da vida e do quão ignorante nós
somos por desejarmos a grandiosidade e a ganância, quando no final tudo será
apagado e esquecido.
Quantos milhões de
pessoas já existiram? Todos esquecidos, apenas um nome sem significado em uma
lápide ou em um atestado de óbito, ou um esqueleto escondido em algum lugar.
Todos os sonhos e aflições, todos os desejos e preocupações, todas as brigas e
felicidades, tudo se foi para sempre. Nós existimos por um curto período de
tempo e depois somos varridos do privilégio da existência. Por alguns anos
podemos continuar vivos nas lembranças de outras pessoas, em fotos, vídeos ou
palavras escritas. Mas nada resiste às garras do tempo, diante dele tudo se
esvai. Quantos viveram antes de nós, mortes em brigas, guerras, disputas,
acidentes? Todos se foram, nenhum sinal de sua existência permaneceu e nenhum
sinal de nós sobrará para as futuras gerações. Desejamos a vida eterna,
desperdiçamos nosso tempo e energia em busca dela, mas nunca a encontraremos.
Só nos resta viver esta vida, livre das tolas preocupações mundanas, sem
desperdício de alegria, sem desperdício de sorrisos pelas ideias contrárias. Sem desperdício de viver, pelo fato de ainda mais querer. Também sem desperdício
da tristeza, pois também ela é necessária, tola ilusão de que seremos felizes
todos os dias. A vida se vai, nos despedimos dela como se fosse pouco tempo, mas
o tempo sempre é tempo, o tempo foi suficiente, nós com nossa ignorância é que
o gastamos com tolices humanas. Tenha para viver, e viva, não tenha além e não
viva. O momento é certo, o amanhã pode ser o fim.
É cruel a ideia de afirmar que a condição de vida
em que uma pessoa se encontra, como, por exemplo, passando fome, sem emprego ou
doente, seria simplesmente falta de pensamento positivo. Pois bastaria desejar
e pensar positivo para alterar sua realidade. Quando se questiona alguém sobre
como este desejo e pensamento positivo mudaria o mundo, tais pessoas costumam
dizer que trata-se de física quântica, que tudo é energia, tudo é quântico.
Apesar do fato de a pessoa nunca ter lido um livro sobre física. Mas para estas
pessoas a melhoria trata-se de emanar energias positivas, seja qual o conceito
distorcido de energia que ela use.
É cruel
dizer que todos os problemas da vida de uma pessoa dependem apenas dela mesma.
Há situações que não controlamos, pois dependem de uma série de fatores e
acasos, interações sociais e históricas. Observa-se
a sociedade tomada por uma onda de misticismo (um tanto arrogante?) que acha que pode mudar
o universo com o poder da mente e energias emanadas.
Não somos reatores ambulantes emanando energia física ou bioquímica,
por meio de troca de elétrons, glicose ou moléculas de ATP. Se os problemas do
mundo pudessem ser resolvidos pela simples "emanação de energia" (não
é possível saber que tipo de energia inexistente é essa que muitas pessoas
falam), então não haveria doenças e nem sofrimento, todos seriam felizes.
Para resolver os problemas do mundo não precisaríamos de dinheiro
e nem de medicina, bastaria nos sentarmos e emanaríamos energias. Bem, não tão
diferente da metodologia da oração, as pessoas repetem algumas palavras e já
acham que fizeram alguma forma de ajuda. Mas o mundo continua a mesma desgraça
para milhões de pessoas, apenas o emanador/orador sente-se melhor, imerso em
uma autoilusão de que cumpriu com suas obrigações.
Apenas o ego do orador ou emanador que se sente satisfeito por
achar que fez algo útil pela humanidade. Quem dera tudo se resolvesse de forma
tão simples. Fale de emanações de energia ou orações para quem está passando
fome, morrendo, sendo torturado ou estuprado; acho que a situação deles não vai
se resolver por estas técnicas, não é? Engraçado é o conceito de que tudo que você
pensa, você atrai. Que a pessoa só recebeu aquilo que ela desejou para os
outros, se recebeu o mal, então desejou o mal. Então uma mulher estuprada ou
uma criança vítima de pedofilia emanaram energias de estupro e pedofilia? Não
faz sentido, não acha?
Nestes aspectos de desejar, agir e receber coisas boas e ruins,
não há efeitos de energias místicas que possam atrair tais situações ao
cotidiano. Sua ocorrência se trata apenas do fato de vivermos em uma sociedade
que exige múltiplas interações entre as pessoas, em que acabam valendo
conceitos de teoria dos jogos, em que interagimos mais ou menos com as pessoas
dependendo dos benefícios ou malefícios que obtemos com estas.
Tentamos ser bons e vemos como as outras pessoas nos correspondem,
se não forem boas conosco, as evitamos. Pura e simplesmente interações sociais.
Nada de energias atraindo ou afastando coisas, apenas nós mesmos selecionado
nossas companhias. E tentando escapar de ações rotineiras ou ao acaso que
permeiam a vida das pessoas e estão fora de suas capacidades de controle.
Talvez seja o aspecto mais frustrante da vida o fato de que não temos completo
controle sobre tudo o que nos diz respeito.
Além do mais, querer espalhar o bem simplesmente com o objetivo de
que ele volte para você, é bastante egoísta, não acha? Ou seja, vou fazer o
bem, pois o universo trará coisas boas para mim. Quanto egoísmo. Será que as
pessoas não conseguem fazer o bem pelo simples fato de perceberem que isso não
é prejudicial aos demais e sim benéfico? Por que as pessoas sempre querem que o
bem volte para si? Seja na forma de "energias" inexistentes ou em
recompensas após a morte? Parece puro interesse próprio essa ideia de faça o
bem para ele voltar para você ou faça o bem para ir para o céu. Não é
necessário "energia", deus, recompensas celestiais, para saber o que
é o bem e para fazer o bem, basta ter um pouco de empatia e solidariedade para
com os demais.
Sempre
escutamos que precisamos tomar ao menos dois litros de água por dia, ou que
quanto mais água tomarmos melhor, ou ainda, que devemos sempre ficar bem
hidratados. A origem destas informações é obscura, e muitas vezes se baseia na
ideia de que água não faz mal, independente da quantidade. Tratando-se, pois,
de uma informação errônea.
Quanto
exatamente de líquidos nós precisamos? Bom, uma estimativa média é de que
absorvemos por meio de líquidos em média 1600 ml, de alimentos 700 ml, e mais
água metabólica de reações químicas do corpo, 200 ml, uma ingestão (em média)
diária de 2500 ml. E como perdemos essa água? Excretamos em média nas fezes 100
ml, expiramos pelos pulmões 300 ml, evapora-se da superfície da pele 600 ml, e
na urina 1500 ml. Assim, nosso organismo mantém certo equilíbrio hídrico1.
Estes valores são aproximações médias, em geral cálculos de desidratação e
hidratação são baseados na massa corpórea da pessoa2. Porém
aparentemente alguém viu esse valor total de líquidos ingeridos e produzidos
pelo corpo e passou a disseminar a ideia de ingestão de 2 litros de água por
dia.
Mas
devemos ficar tomando e tomando água constantemente? Bom, a princípio, se não
há algum problema de saúde que possa prejudicar o equilíbrio hídrico de nosso
corpo e a forma como ele regula sua homeostase, o próprio organismo produz
sinais indicativos da necessidade de ingestão de água. Em nosso corpo o
hipotálamo controla a sede, por meio da detecção de alterações na pressão
osmótica nos tecidos corporais (ou seja, se eles estão com água suficiente ou
se estão murchando, faltando perdendo água1.
Um
desses sinais utilizados pelo hipotálamo é a diminuição do volume sanguíneo,
que causa uma queda da pressão sanguínea; isso estimula os rins a liberar
renina (uma enzima), que promove a produção de angiotensina II (um peptídeo).
Os osmorreceptores no hipotálamo, que detectam as variações na pressão
osmótica, e o aumento da quantidade de angiotensina II no sangue estimulam o
centro de sede do hipotálamo a produzir essa sensação, um alerta de que o corpo
deve ingerir mais líquidos1, 3.
Os
neurônios na boca também detectam a secura nesta parte do corpo devido ao fluxo
reduzido de saliva, então aumentando a sensação de sede. Em pessoas idosas ou
crianças essa sensação pode ser mais lenta do que a necessidade do corpo, daí
serem grupos que demandam maiores cuidados com a hidratação1, 3.
Além disso, o processo de desidratação pode ser mais rápido em dias com
temperatura muito elevada ou muito baixa (quando o ar também pode ficar mais
seco), podendo em alguns casos levar a pessoa ao óbito caso não tenha cuidado
para manter-se hidratada4.
Porém
nem tudo é um paraíso na água. Quando uma pessoa consome água constantemente,
de modo mais rápido do que os rins podem excretá-la (a taxa máxima do fluxo de
urina é cerca de 15 ml/min) ou quando sua função renal é deficiente, a
diminuição da concentração de Na+ (íons sódio) do líquido intersticial (líquido
localizado entre as células) faz a água passar, por osmose, desse líquido para
o fluído intracelular1. Fato que pode resultar na intoxicação por
água, um estado em que a água corporal excessiva leva as células a incharem
perigosamente, produzindo convulsões, coma e, eventualmente, morte. Por isso
que para evitar essa terrível sequência de eventos a terapia de reidratação
oral ou endovenosa inclui uma pequena quantidade de sal1, 5.
Com
estas informações percebemos que na ausência de problemas de saúde o próprio
organismo trata de regularizar sua hidratação e que muitas vezes, dadas as
circunstâncias, o excesso de água pode ser tão
prejudicial quanto sua falta, ao contrário do que muitas dietas podem pregar,
alegando que água é fonte de apenas benefícios e esquecendo-se de que muitas
vezes o que diferencia o remédio do veneno é a dose.
Referências:
1 - Tortora, G.J.; Gabrowski, S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos
de anatomia e fisiologia. Porto Alegre: Artmed. 718p.
3 - Thomas,
D.R.; Cote, T.R.; Lawhorne, L.; Levenson, S.A.; Rubestein, L.Z.; Smith, D.A.;
Stefanacci, R.G.; Tangalos, E.G.; Morley, J.E. 2008. Understanding clinical
dehydration and its treatment. The Journal of Post-Acute and Long-Term Care
Medicine 9(5): 292-301.
4 - Lim, Y.H.;
Park, M.S.; Kim, Y.; Kim, H.; Hong, Y.C. 2014. Effects of cold and hot
temperature on dehydration: a mechanism of cardiovascular burden. International Journal of Biometeorology 59(8): 1035-1043.
5 – Évora, P.R.B.; Reis, C.L.; Ferez, M.A.; Conte, D.A.; Garcia,
L.V. 1999. Distúrbios do equilíbrio hidroeletrolitico e do equilíbrio
acidobásico – uma revisão prática. Medicina 32: 451-469.
Um
dos problemas mais comuns em relação às ditas medicinas alternativas e/ou
complementares, aos naturólogos e também aos nutricionistas é a aparente falta
de conhecimento por parte de alguns (não vou generalizar) destes profissionais
sobre o método científico e sobre cuidados para realização de um bom
experimento que possua boas bases estatísticas. E sobre como estas
características influenciam em suas respectivas afirmações relacionadas à saúde
das pessoas. É comum observarmos as pessoas fazendo associações de falsa
correlação e também de correlações espúrias para justificar que um determinado
alimento ou produto faz mal e outro faz bem. Não que esse problema também não
ocorra em outras formações, como muitos de meus colegas de formação (biólogos),
por exemplo.
É
bem comum encontrarmos a afirmação de que refrigerantes de cola (e.g.
coca-cola, pepsi, etc) vão corroer os ossos da pessoa, e como base para isso
usam o exemplo de deixar um osso de galinha dentro de um copo com estes
produtos, e após um tempo, este estaria parcialmente deteriorado ou
emborrachado. A coca-cola tem um pH de em média 1,78, podendo chegar 3 (Skupien
et al,, 2009), enquanto o pH médio do estômago é em média 2 (Tortora &
Gabrowski, 2006), afinal, temos ácido clorídrico no estômago. Ou seja, o maior
risco poderia ser em efeitos destes refrigerantes sobre os dentes e não sobre
os demais ossos do corpo, tendo em vista que estas bebidas não vão entrar em contato com eles e há ácido de igual potência e em alguns casos mais forte no estômago. Salvo
algum efeito prejudicial de outras substâncias presentes nestas bebidas, mas no
assunto em questão, a afirmação aparenta ser um tanto quanto exagerada.
Essa
afirmativa seria o mesmo que dizer que como o oxigênio provoca oxidação
(ferrugem) de barras de ferro, não deveríamos deixá-lo entrar em contato com o
nosso corpo. Afinal, se enferruja algo forte como o ferro, o que o oxigênio
poderia fazer com nossos pulmões? Ou seja, só porque algo é prejudicial em
certos aspectos ou para certos materiais, não significa que também o será para
nosso organismo. Devemos analisar o contexto de real aplicação à nossa saúde,
ninguém vai deixar de respirar só porque oxigênio participa do processo de
“enferrujar” ferro.
Figura 1. “Isto é ferrugem. Ela é
causada pelo oxigênio e se chama oxidação. Nós respiramos oxigênio todos os
dias. Se ele pode fazer isso com uma corrente, então imagine o que ele pode
fazer para os seus pulmões. Compartilhe para aumentarmos a consciência sobre os
perigos do oxigênio.”
De
mesma forma que nem tudo que parece ser ruim em um alimento vai nos prejudicar,
nem tudo que ele tem de bom vai nos beneficiar. Exemplificando, em relação ao
uso de suplementos vitamínicos e minerais, nosso organismo não possui um
mecanismo para armazenar muitas dessas substâncias e, algumas das que são
absorvidas, quando em excesso, também podem fazer mal. Aprofundando esse
exemplo, sobre o consumo de cálcio como suplemento alimentar para reduzir os
efeitos da osteoporose, será que realmente funciona? O armazenamento do cálcio
ou não nos ossos e seu uso em outras atividades do corpo é controlado por
hormônios, como hormônio paratireoideo, calcitonina e calcitriol (vitamina D;
Tortora & Gabrowski, 2006).
Estes
hormônios em conjunto vão definir quanto de cálcio dos ossos será liberado na
corrente sanguínea para atividades do corpo, quanto será reabsorvido para os
ossos e quanto será absorvido nos intestinos a partir dos alimentos (Tortora
& Gabrowski, 2006). Assim, se não houver um controle hormonal, não haverá a
absorção e deposição do cálcio nos ossos, tornando o consumo excessivo de
cálcio ineficiente. Isto também é o que apontam revisões sistemáticas e
meta-análises que indicam certa controvérsia sobre a real eficiência no consumo
de cálcio, e que aparentemente seu consumo pode resultar em mais efeitos
benéficos quando em conjunto com suplemento de vitamina D (Borrelli &
Ernst, 2010). Ou este tratamento combinado com exercícios físicos, que podem
colocar os ossos em uma situação de estresse, responsável por aumentar a
deposição de cálcio em suas estruturas (Tortora & Gabrowski, 2006; Borrelli
& Ernst, 2010).
Além
disso, essas questões também levantam dúvidas. Considerando que se muitos
problemas de pedras nos rins resultam no acúmulo de sais minerais, tal formação
poderia resultar deste consumo excessivo de cálcio? Bem, em excesso, a
suplementação de cálcio e vitamina D pode realmente pode resultar na formação
deste problema (Gallagher et al., 2014; Letavernier
et al., 2016). Ou seja, ao invés de melhorar uma situação, o uso
descontrolado de produtos complementares pode piorar a saúde das pessoas.
Desta
forma, é possível perceber que, apesar do que é pregado por certos
profissionais da saúde de que para tudo existe uma definição rígida daquilo que
é saudável ou prejudicial, o limiar entre estas duas situações parece ser muito
mais tênue. Um refrigerante que é visto como um vilão, em pouca quantidade pode
ser inofensivo. Enquanto que a ingestão de suplementos de sais minerais e
vitaminas, vistos como produtos altamente benéficos, podem resultar em
problemas de saúde. Nestas situações, talvez a melhor solução seja uma variação
de uma frase atribuída à Paracelso que diz: “todas as substâncias são venenos;
não existe uma que não seja veneno. A dose certa diferencia um veneno de um
remédio”. Mas, é claro, tal dose depende de que tipo de produto se está
falando.
Referências:
Borrelli, F.; Ernst, E.
2010. Alternative and complementary therapies for the menopause. Maturitas 66: 333-343.
Gallagher, J.C.; Smith,
L.M.; Yalamanchili, V. 2014. Incidence of hypercalciuria and hypercalcemia
during vitamin D and calcium supplementation in older women. Menopause 21(11):
1173-1180.
Letavernier, E.; Verrier,
C.; Goussard, F.; Perez, J.; Huguet, L.; Hayman, J.P.; Baud, L.; Bazin, D.;
Daudon, M. 2016. Calcium and vitamin D have a synergistic role in a rat model
of kidney stone disease. Kidney International 90(4): 809-817.
Skupien, J.A.; Bergoli,
C.D.; Pozzobon, R.T.; Brandão, L. 2009. Avaliação do pH de
refrigerantes do tipo normal e light.
Saúde 35(2): 33-36.
Tortora, G.J.; Gabrowski,
S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. Porto Alegre:
Artmed. 718p.
Foi publicado no dia 06 de junho de 2016, o novo livro dos autores deste blog “Borboletas e mariposas de Santa Catarina: uma introdução”, no livro foram registradas 1637 espécies de borboletas e mariposas para Santa Catarina, e ainda são apresentadas informações sobre origem, evolução e biologia em geral da ordem Lepidoptera (borboletas e mariposas) e informações de biologia geral e/ou ecologia de 37 famílias desta ordem com mais de 300 fotos. O livro pode ser como guia de identificação para algumas destas espécies que foram registradas.
Abaixo seguem os links para download gratuito ou compra de exemplar impresso.
Estima-se que do começo do século 20 até
a década de 1970 cerca de 300 milhões de pessoas morreram de varíola, após
diversas campanhas de vacinação essa doença foi erradicada do mundo e apenas um
caso foi registrado após 1978 (Burton, 2002). Entretanto, sempre em épocas de
vacinação ouvimos os velhos comentários em meio à população, que vacinas fazem
mal, que são uma conspiração do governo para eliminar certos grupos da
população.
Muito disso vem devido ao
desconhecimento da população sobre a ciência e sobre biologia, neste caso,
sobre o funcionamento das vacinas e sobre o próprio funcionamento do corpo
humano. Alia-se a estas questões o fato de muitas pessoas não visualizarem mais
casos de muitas das doenças para as quais elas são imunizadas, assim deixando
de dar a devida importância às vacinas.
Mas como funcionam as vacinas? As
vacinas são feitas com vírus ou bactérias mortos ou atenuados (enfraquecidos) e
que assim não resultarão no desenvolvimento da doença nas pessoas que receberão
a dose em seus corpos. Elas servem, dizendo de forma bem simples, para
treinarmos o nosso sistema imunológico a lutar contra infecções causadas por
vírus ou bactérias. Quando injetamos esse material em nosso organismo isto
desencadeia uma reação de nosso sistema imunológico que vai “lutar” contra o
material e durante esse processo vai fazer um reconhecimento e criar células
especiais que vão memorizar como eram esses vírus e bactérias que foram
injetados no corpo, mesmo eles estando mortos e/ou fragmentados (Burton, 2002;
Sallusto et al., 2010).
Criada essa memória em nosso sistema
imunológico, quando por algum infortúnio formos infectados com um vírus ou
bactéria vivos, seja pelo vírus da gripe Myxovirus influenzae ou
pela bactéria do tétano Clostridium
tetani, nosso sistema imunológico reconhecerá o patógeno. Esse reconhecimento será feito mais
rapidamente e devido à memória imunológica também produzirá anticorpos de forma
mais rápida e eficiente não permitindo que os patógenos se proliferem pelo
corpo, evitando, dessa forma, o desenvolvimento da doença e seus sintomas
(Burton, 2002; Sallusto et al., 2010).
Como injetamos um material estranho em
nosso corpo, as vacinas podem resultar em efeitos adversos? Muitas pessoas
acham que algumas vacinas (tríplice viral) poderiam causar autismo em crianças,
porém essa crença não tem fundamento, mais de 20 estudos epidemiológicos
realizados em diferentes países mostraram que elas não causam esse problema nas
crianças, o autismo não é ocasionado por nenhuma reação do sistema imune
(Gerber & Offit, 2009). O autismo é hereditário e uma de suas principais
causas é genética, associada com questões ambientais e epigenéticas (Hall
& Kelley, 2014).
Efeitos adversos sempre poderão ocorrer,
mas possuem efeitos menores sobre o corpo da pessoa do que se ela adquirisse
alguma doença que poderia ter evitado tomando uma vacina (Brasil, 2014).
Afinal, todo medicamento que uma pessoa ingere pode resultar em efeitos
adversos, desde uma “simples” aspirina (ácido acetilsalicílico), que, conforme
a bula indica, em doses elevadas foi registrado que 10 a 20% dos pacientes
tiveram náusea, vômito e dor gástrica, e hemorragias ocultas em 70% dos
pacientes. Ou o paracetamol, que também conforme indica a bula, devido a sua
hepatotoxicidade (ser tóxico para o fígado) em casos muito raros pode resultar
em “êxito letal” (morte) e também reações de hipersensibilidade (erupções
cutâneas, urticárias, eritema, etc.).
Ou a dipirona, que pode resultar em
reações alérgicas e em casos raros em agranulocitose, uma redução dos glóbulos
brancos do sangue, que em casos graves pode resultar no aparecimento de feridas
em mucosas, no intestino, na garganta e na pele, representando risco de vida.
Até mesmo os tão venerados remédios naturais podem resultar em diversas reações
que colocam em risco a vida das pessoas (ver links de blogs nas referências:
Favretto, 2015; Santos, 2016; Orlandin, 2016). Ou seja, riscos muitas vezes
maiores do que os das próprias vacinas.
Porém no momento de dor e sofrimento não
pensamos duas vezes em usar os remédios para melhorarmos nossa saúde
independente de possíveis reações adversas, mas como as vacinas são para a
prevenção, talvez a ausência de sofrimento e dor por doenças seja uma das
motivações de resistência por parte das pessoas. Então se você é uma destas que
não aprecia vacinas olhe para as fotos abaixo, muitas dessas fotos são de
doenças para as quais tomamos vacinas para ficarmos imunizados. Aposto que muitas
delas você nem imaginava como seriam.
Figura
1. Paciente sofrendo fortes espasmos musculares causados pelo tétano. Fonte:
Charles Bell (1809).
Figura
2. Criança com sequela da poliomielite (paralisia infantil) em sua perna.
Fonte: CDC (1994).
Figura
3. Paciente com varíola. Fonte: John Noble Jr – CDC (1967).
Figura 4. Criança com rubéola.
Fonte: Jim Goodson – CDC (2014).
Figura 5. Criança com difteria.
Fonte: Barbara Rice – CDC.
Após olhar as fotos, retornemos
novamente ao ponto do não encontro com casos de pessoas doentes, isto nos
remete a algo emocional, como as pessoas não veem mais o sofrimento causado por
muitas dessas doenças, suponho que elas acabaram se esquecendo do mal que elas
ocasionavam. Por exemplo, há muitas décadas que não temos mais casos de
poliomielite no Brasil, e muitas outras doenças infantis possuem um número
bastante reduzido de casos. É possível que essa aparente seguridade de ausência
de doenças dê uma falsa impressão às pessoas de que estes males não retornarão.
No entanto, com o avanço de movimentos
antivacina e da falta de elucidação sobre as vacinas, diversas pessoas podem
começar a recusar este recurso, especialmente em épocas de mídias sociais em
que teorias conspiratórias sem fundamento algum se espalham rapidamente.
Levanto a hipótese de que se as campanhas de vacinação apresentassem de forma
mais clara visualmente os sintomas das doenças, como nas fotos acima, é
possível que mais pessoas se prontificassem a tomar vacinas. Simplesmente apresentar
um grupo de sintomas abstratos e textos escritos para uma população que possui
um elevado percentual de analfabetos funcionais e científicos pode não ser o
bastante para manter o desempenho de campanhas de vacinação. Infelizmente, como
muitos movimentos antivacina apelam para a emoção das pessoas, também resta
para as ações pró-vacina não apenas mostrar os dados científicos, mas também
fazer esse apelo. Afinal as pessoas se identificam e tem mais empatia com um
indivíduo visível do que com números (Pinker, 2013), fato que pode resultar em
melhores resultados de campanhas de imunização.
Referências
Brasil.
2014. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de
Vigilância Epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília: Ministério
da Saúde. 250p.
Ao longo de toda sua existência,
o ser humano tem se deparado com diversos fenômenos que não sabe explicar. Não
havendo um corpo de conhecimentos conciso que pudesse ser utilizado para tal e sendo
um símio imaginativo que é, desenvolveu diversas explicações sobrenaturais numa
tentativa de criar respostas para os problemas que o rondavam. Desta forma,
fenômenos naturais como trovões e secas, foram atribuídos a deuses zangados,
bem como outras entidades sobrenaturais.
Doenças, por serem ocasionadas
por seres vivos que não são visíveis a olho nu, ou disfunções desconhecidas no
funcionamento do organismo humano, foram atribuídas a entidades sobrenaturais
malignas ou justiceiras. Atualmente, com os avanços das ciências biológicas e
médicas, muitas destas doenças que se acreditava serem ocasionadas por seres
sobrenaturais, passaram a ser melhor entendidas, onde vírus, bactérias e
disfunções psiquiátricas/neurológicas tornam-se explicações corriqueiras.
Conforme mencionado em texto
anterior neste blog, pessoas com epilepsia, por exemplo, eram consideradas
pessoas sob influência de deuses ou espíritos malignos na antiguidade e idade
média, ou como pessoas possuídas por demônios, conforme afirma a bíblia cristã
sobre a epilepsia, ainda utilizada atualmente (Bíblia cristã - Mateus 17:
15-18). Porém, mesmo durante períodos antigos, muitos homens ilustres
procuraram uma explicação científica para a causa dessa doença, conforme
diversos dados apresentados por Magiorkinis e colaboradores (2010), referente à
abordagem da epilepsia no antigo Egito, Babilônia, Grécia e Roma. Atualmente,
pessoas com epilepsia passaram a ser tratadas de forma digna com medicamentos e
um acompanhamento médico, tratamentos desenvolvidos pela ciência.
Percebe-se então que desde a
antiguidade, apesar dos esforços depreendidos por diversos pesquisadores, e de
diversas fontes de informações e conhecimentos gerados, a explicação
sobrenatural para doenças sem causa visível aparente continuou sendo utilizada
em detrimento da realidade. Desta forma, certas doenças foram consideradas como
comprovações dos anseios pela existência do sobrenatural que tantas pessoas
possuem.
Um dos primeiros aspectos a
analisarmos nesta situação é que possessão implica na existência de almas ou
outras entidades imateriais não detectáveis por nenhuma tecnologia atualmente e
que de certa forma poderia interagir com a matéria. Assim, supostamente um
demônio ou alma penada, existiria de forma imaterial, mas mesmo essa imaterialidade
interagiria com a matéria, alterando o comportamento de uma pessoa e utilizando
seu corpo para fins demoníacos. Esta suposta possessão acaba implicando na
existência de uma também suposta alma humana que seria de certa forma tirada do
corpo humano, relegada a algum canto dentro da própria pessoa, enquanto a alma
invasora controlaria o corpo da pessoa.
Porém, sobre o problema da alma
devemos abordar as afirmações de Costa (2005):
“[...] segundo a lei da conservação da energia, a quantidade
de energia do Universo deve permanecer a mesma; mas se alguma energia do mundo
material se perde na alma, ou esta a introduz no mundo material, essa lei
precisa ser revista. Outro exemplo: a teoria da evolução ensina que nós
evoluímos a partir de espécies inferiores. Quando teria então surgido a alma?
Como explicar, ademais, que precisamos de um cérebro tão grande, se uma alma
inextensa [e diríamos aqui imaterial*]
com certeza caberia em um cérebro do tamanho de um grão de ervilha? Como
explicar o efeito de drogas e medicamentos na mente? Como explicar que uma
doença como a de Alzheimer, que reduz o cérebro até um terço do seu tamanho,
tenha efeitos tão devastadores sobre a atividade mental? Como explicar, em
suma, o papel do cérebro? [...]” * - Adendo meu.
Se existisse uma alma imaterial
e nela estivessem contidas todas as nossas lembranças, sentimentos, desejos,
tudo que compõe nossa personalidade, como então doenças neurodegenerativas
poderiam influenciar estas aptidões? Se existisse uma alma, como uma pessoa com
mal de Alzheimer poderia perder suas memórias? Se alma possui todas estas
características que serão usadas em um plano pós-vida, então não haveria
motivos para nos preocuparmos com doenças e transtornos mentais. Só por estas
afirmações já percebemos que as respostas para estas dúvidas implicam na
inexistência de uma alma, e assim, na inexistência deste fenômeno de possessão.
O cérebro é um conjunto de
neurônios que, em seu funcionamento como um todo, pode permitir um processo de
emergência, onde encontramos então a consciência e por meio destas interações
entre neurônios temos a formação do que chamamos de “eu”, onde não há uma
divisão entre mente e cérebro, pois ambos são a mesma entidade física. Porém, longe
de ser um órgão perfeito o sistema nervoso de todos os animais está sujeito a
falhas, em especial por meio de excesso ou falta de produção de
certos neurotransmissores que implicam em alterações na forma
como o cérebro funciona. Por vezes acontecendo uma ruptura com a realidade o
que poderia implicar no surgimento de alucinações, em caráter mais frequente
como esquizofrenia ou em eventos isolados como surtos psicóticos, que ainda em
algumas ocasiões podem ser considerados não-patológicos. Para tanto, basta que
ocorram alterações no funcionamento de suas vias dopaminérgicas, por exemplo, e
toda a percepção da realidade por parte do indivíduo é alterada (Brandão,
2004).
Estes estados de consciência
alterada, muitas vezes seguidos de alucinações, podem ser induzidos por
sugestão e manifestados por estado sonambúlico, que podem resultar em
modificações deste estado por meio de respostas verbais e físicas dadas as
injunções sugestivas. O indivíduo sugestionável assume de forma
temporária outras identidades, confusão mental ou sonolência, além de grande
desgaste físico e amnésia ao sair do processo (Nina-Rodrigues apud Almeida et
al., 2007), provavelmente sendo estas induções responsáveis pelos êxtases e
transes religiosos ou eventuais “possessões” em cultos.
Tal apropriação de pessoas sugestionáveis
a estas situações é uma deturpação de um provável estado de saúde mental
debilitado, em que as pessoas que deveriam procurar auxílio médico e não
participar destas atividades, acabam sendo usadas como atrações religiosas
devido a falta de conhecimento científico da grande maioria da população. Assim
permanecemos como na antiguidade, com doenças sendo confundidas com possessões
demoníacas.
Observe que em estudo com 115
médiuns em São Paulo, Almeida (2004) constatou que:
“[...] a mediunidade provavelmente se constitui numa vivência
diferente do transtorno de identidade dissociativa. A maioria teve o início de
suas manifestações mediúnicas na infância, e estas, atualmente, se caracterizam
por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam
num diagnóstico de esquizofrenia.”
Desta forma, a alucinação não é
necessariamente algo patológico, estima-se que 10-30% da população sem
patologias mentais tenham tido alguma experiência deste tipo (Almeida, 2004). Essas
ocorrências de “deslizes” no funcionamento cerebral contribuem para que se espalhe
a ideia de visões sobrenaturais e eventuais possessões. Principalmente
associadas a um ambiente de falta de conhecimento científico por parte da
população e ao profundo desejo de acreditar na existência do sobrenatural, que
de certa forma, seria uma confirmação das expectativas em relação à existência
de um pós-morte.
Nesta discussão seria ainda
importante mencionar a síndrome de Gilles de la Tourette, doença cujos sintomas
já foram definidos como possessão demoníaca (Cavana e Ricards, 2013). Seus
sintomas são similares aos descritos no livro Malleus Malleficarum para pessoas que supostamente estariam
possuídas por um demônio (Orsi, 2011). Essa
doença é um transtorno neuropsiquiátrico que geralmente ocorre na infância, mas
que se prolonga para a idade adulta, ocasionando tiques motores e vocais,
ocasionada por alterações neurofisiológicas e neuroanatômicas (Fen et al.,
2001). Um vídeo de uma pessoa com um caso extremo desta síndrome pode ser visto
abaixo. Após ver o vídeo, refletindo sobre a situação em que estas pessoas e
outras que apresentam síndromes e alterações no funcionamento bioquímico e
fisiológico do cérebro se encontram, não deveríamos nos esforçar para que
houvesse um maior entendimento público sobre o que é ciência e medicina de
verdade, e tentar reduzir a difusão de pseudo-ciências, pseudo-medicinas e
crendices? O que seria de uma pessoa dessas em uma sociedade ainda tomada por
crenças plenas na existência de demônios? Seria exorcizada e queimada em uma
fogueira? A compreensão mais aprofundada da ciência, medicina e a prática do
ceticismo diante de crenças são fundamentais para garantir que pessoas com
transtornos neurológicos/neuropsiquiátricos passem a ter um atendimento
humanizado e correto. Que não sejam mais vistas como aberrações demoníacas em
palcos de igrejas ou rituais de exorcismo, e sim recebam o tratamento adequado
para que possam seguir de forma digna com suas vidas.
Referências
Almeida,
A.A.S.; Oda, A.M.G.R.; Dalgalarrondo, P. 2007. O olhar dos psiquiatras
brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista de Psiquiatria
Clínica 34(supl. 1): 34-41.
Almeida, A.M.
2004. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de
médiuns espíritas. Tese. Departamento de Psiquiatria. Faculdade de Medicina.
Universidade de São Paulo. 278p.
Brancão, M.L.
2004. As bases biológicas do comportamento: introdução à neurociência. Ed.
Gráfica Pedagógica Universitária. 244p.
Cavana, A.E.; Rickards, H. 2013. The
psychopathological spectrum of Gilles de la Tourette syndrome. Neuroscience and
Behavioral Reviews 37: 1008-1015.
Costa, C.
2005. Filosofia da Mente. Ed. Zahar. 67p.
Fen, H.C.;
Barbosa, E.R.; Miguel, E.C. 2001. Síndrome de Gille de la Tourette: estudo
clínico de 58 casos. Arquivos de Neuropsiquiatria 59(3-B): 729-732.
Magiorkinis,
E.; Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity.
Epilepsy & Behavior 17: 103-108.
Orsi, C.
2011. O livro dos milagres: a ciência por trás das curas pela fé, das relíquias
sagradas e dos exorcismos. Rio de Janeiro: Vieira & Lent.
Muitos acreditam que quando uma
pessoa morre uma parte imaterial de si passa para outro plano, ou para outra
existência, apesar de em Eclesiastes 3:20 haver a menção de que do pó veio e ao pó
voltarás, pois todos vão a um mesmo lugar. Steven Pinker (2013), psicólogo evolucionista
menciona que mesmo em crianças há algo no funcionamento do cérebro das pessoas
que torna difícil entender a finitude da vida. Quando crescemos construímos
melhor o conceito de fim da vida, nosso cérebro compreende o fim dos corpos.
Ainda assim, algumas pessoas apreciam a possibilidade de uma continuidade como
um consolo para a curta e sofrível existência humana.
É comum que pessoas procedam com
supostos testemunhos sobre aparições de fantasmas ou de entidades
sobrenaturais. Porém, há certos aspectos destas aparições que demonstram que
estas podem mais ser fruto da mente humana do que a prova de uma realidade
sobrenatural. Analise desta forma, para que fantasmas e assombrações usam
roupas? Em muitos relatos de aparições e pessoa está usando roupas, mas para
quê? A roupa é feita de tecidos vegetais, animais ou sintéticos, como esta
roupa acompanha a pessoa numa vida além morte? Se a pessoa não sente frio e nem
calor, pois não possui mais um corpo material, se possui mais um propósito de
atender normas sociais contra nudismo e exposição de partes sexuais (que
segundo dizem, anjos não possuem), então por que fantasmas e assombrações usam
roupas? Não seria por se tratar apenas de um lapso no funcionamento neuronal da
pessoa que fez com que ela tivesse uma alucinação?
Outra questão importante, por
que os fantasmas geralmente têm uma aparência cadavérica, mórbida e
assustadora? Não é por que a mídia impõe essa visão das assombrações e assim
quando a pessoa por algum motivo alucina é remetida a esse aspecto? Se o corpo
material é transitório, por que haveria de o “corpo” pós-morte ter a aparência
de um corpo vivo ou manter todas as características do momento da morte? Se a
assombração é algo imaterial, como poderia agir com o material, encostando em
objetos, produzindo sons e afins, se seu meio de contato com o material já
apodreceu? Ou ainda, por que as assombrações só aparecem a noite, justamente
quando as pessoas estão com sono ou quando acordam em meio a noite, e assim,
fica-se mais suscetível que o subconsciente interaja com o consciente
produzindo uma alucinação, um sonho lúcido ou uma paralisia do sono?
Desta forma, vemos que as
supostas afirmações sobrenaturais, são cheias de incongruências que levam ao
entendimento de serem uma explicação inventada para outros fenômenos materiais
que levam a pessoa a observar algo que não existe. Ou seja, fenômenos
biológicos, como alucinações. É possível que as pessoas só aceitem a ideia de
alucinação quando acabarmos com certos preconceitos associados a esse fenômeno
e que assim levam a ocorrência da psicofobia, preconceitos em relação a pessoas
que possam ter funções psicológicas/neurológicas alteradas. Até que isto
ocorra, a explicação sobrenatural será considerada mais bela e reconfortante,
afinal, serviria como um reforço para as crenças das pessoas, do que a
explicação relacionada a um problema, mesmo que ocasional, no funcionamento
neuronal destas.
É necessário afirmar que a
alucinação não é necessariamente algo patológico, tanto que pode ser induzida
por estados de estresse ou consumo de diferentes substâncias químicas. Almeida (2004),
afirma que 10% a 30% da população sem patologias mentais já teve algum tipo de
alucinação. Ou seja, estes estados de consciência alterados podem ser mais
comuns de ocorrerem do que imaginamos, necessitando a plena compreensão de
tratar-se de algo físico nos neurônios e não algo relacionado a existência de
fantasmas e assombrações.
Até há pouco tempo a epilepsia
era considerada como fruto de possessão, em algumas culturas divina e em outras
demoníaca, porém com o avanço do conhecimento científico esclarecido que
tratava-se de uma disfunção no cérebro (ver Magiorkinis e colaboradores, 2010),
que pode ser medicada e tratada. Assim não precisamos mais realizar exorcismos
em pessoas que tenham epilepsia, como afirma a Bíblia (Mateus 17: 15-18).
Somente com a difusão do conhecimento científico, do pensamento crítico e
reflexivo, poderemos compreender que os fenômenos de fantasmas e assombrações,
ocorrem dentro de nossas cabeças, que podem ser ocasionais ou podem ser
sintomas de algo mais sério.
Referências:
Almeida, A.M.
2004. Fenomenologia das experiências
mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese. Departamento de
Psiquiatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. 278p.
Magiorkinis, E.;
Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity. Epilepsy & Behavior17: 103-108.
Pinker, S. 2013. Como a mente funciona. Ed. Companhia das Letras. 3ª edição. 672p.
Um dos muitos argumentos que
ouvimos sobre o mundo ser fruto de uma divindade é aquele que afirma que tudo é
perfeito, que tudo no mundo está conectado por energias ocultas, a forma como
as espécies estão conectadas, a abelha com seu papel essencial na polinização
de certas plantas, o corpo humano, etc. Uma ideia de perfeccionismo onde nós
mesmos seríamos considerados seres perfeitos, afinal imagens da própria
divindade conforme alguns textos religiosos.
Fonte da imagem: Yathin S. Krishnappa. Wikimedia Commons.
Porém, a natureza não é um meio
recheado de benevolência, ela é indiferente perante as situações humanas, em
si, não é nem uma entidade imaginativa como uma “mãe-natureza”. O que chamamos
por natureza nada mais é do que o resultado de múltiplas interações entre
diferentes populações de diferentes espécies coexistindo em um mesmo planeta.
Ao longo de milhões de anos de evolução algumas destas interações se tornaram
mais “íntimas”, se especializaram, gerando esse aspecto superficial de
organização perfeita que algumas pessoas acreditam que seja.
Por detrás deste manto de
natureza pacífica, vemos que sua indiferença resulta tanto em resultados que
consideramos belos, quanto em resultados terríveis. O mais geral destes
resultados que poderíamos considerar terrível é pensar que vivemos em um mundo
onde os seres vivos precisam matar ou explorar uns aos outros para sobreviver.
Os herbívoros arrancam e dilaceram partes de plantas para sobreviver,
prejudicando-as e estas revidam com produção de toxinas. Os carnívoros matam e
evisceram outros animais para obter seu alimento. Os parasitas sugam nutrientes
ou ingerem partes não vitais de suas vítimas, mantendo-as vivas enquanto vão
lentamente se alimentando delas.
O próprio Charles Darwin já
havia se assustado com certos aspectos violentos da natureza, como certas
espécies de vespas parasitas. Estas possuem como vítimas larvas de Lepidoptera
(borboletas e mariposas), nas quais as vespas injetam seus ovos, que, aoeclodirem,
passam a devorar sua vítima viva, de dentro para fora. Ou o que dizer de todas
as doenças bacterianas, virais ou parasitárias que matam milhões de pessoas
todos os anos. Não, não vivemos em um mundo que possa ser considerado como uma
criação perfeita. Se este mundo foi criado por alguma divindade, os conceitos
de perfeição desta devem no mínimo ser deturpados, e acredito que qualquer um
de nós poderia gerar um mundo onde não haveria tanta violência e evisceração.
Isto resulta que não devemos
usar a natureza como inspiração para ética e moralidade, estes dois conceitos
devem vir de uma reflexão filosófica e de resultados positivos que possam ser
obtidos entre as interações humanas e destes com outros seres vivos. Algumas
pessoas querem justificar certos comportamentos por ocorrerem em outros
animais, comportamentos inofensivos como a homossexualidade, porém se a
justificativa desta orientação for baseada na natureza, também a escravidão
poderá ser, pois ocorre entre formigas. E também o estupro, a guerra, o infanticídio
que ocorrem entre outros animais, como nos símios tão próximos evolutivamente
de nós. Ou seja, justificativas de conduta/comportamento social não devem ser
baseadas em exemplos da natureza, não obtemos ética e moralidade desta, e sim
da reflexão e filosofia. Por isso que, por exemplo, a questão da
homossexualidade não se justifica pela existência em outras espécies, e sim
pelo fato de esta não realizar mal nenhum para outros seres vivos, trata-se
apenas de uma interação amorosa entre dois indivíduos.
Diante desta indiferença da
natureza, só nos resta questionar, se o mundo assim o é, nos resta apenas a
possibilidade de um deísmo ou panteísmo para aqueles que assim desejam a
existência de uma divindade. Um ser que criou o universo apenas para ver o que
ocorreria e quais rumos seguiria, sem interferências
posteriores, sem eliminação da violência da natureza. Apenas um espectador
diante dos caminhos tortuosos que a evolução segue neste nosso pequeno planeta.
E neste vasto mar de incertezas, nos resta a reflexão crítica, a filosofia e a
ciência para ser a base moral e ética de nossos comportamentos, pois
inerentemente todos sabemos quando realizamos um ato que prejudicou outras
pessoas e quando este foi benéfico, esta é base de nossa moralidade.
Larvas de vespas parasitoides devorando uma larva de borboleta de dentro para fora.