segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Falácias Quânticas, Religiosas e a Inevitabilidade do Acaso

Autor: Mario Arthur Favretto

É cruel a ideia de afirmar que a condição de vida em que uma pessoa se encontra, como, por exemplo, passando fome, sem emprego ou doente, seria simplesmente falta de pensamento positivo. Pois bastaria desejar e pensar positivo para alterar sua realidade. Quando se questiona alguém sobre como este desejo e pensamento positivo mudaria o mundo, tais pessoas costumam dizer que trata-se de física quântica, que tudo é energia, tudo é quântico. Apesar do fato de a pessoa nunca ter lido um livro sobre física. Mas para estas pessoas a melhoria trata-se de emanar energias positivas, seja qual o conceito distorcido de energia que ela use.
 É cruel dizer que todos os problemas da vida de uma pessoa dependem apenas dela mesma. Há situações que não controlamos, pois dependem de uma série de fatores e acasos, interações sociais e históricas. Observa-se a sociedade tomada por uma onda de misticismo (um tanto arrogante?) que acha que pode mudar o universo com o poder da mente e energias emanadas. 
Não somos reatores ambulantes emanando energia física ou bioquímica, por meio de troca de elétrons, glicose ou moléculas de ATP. Se os problemas do mundo pudessem ser resolvidos pela simples "emanação de energia" (não é possível saber que tipo de energia inexistente é essa que muitas pessoas falam), então não haveria doenças e nem sofrimento, todos seriam felizes.
Para resolver os problemas do mundo não precisaríamos de dinheiro e nem de medicina, bastaria nos sentarmos e emanaríamos energias. Bem, não tão diferente da metodologia da oração, as pessoas repetem algumas palavras e já acham que fizeram alguma forma de ajuda. Mas o mundo continua a mesma desgraça para milhões de pessoas, apenas o emanador/orador sente-se melhor, imerso em uma autoilusão de que cumpriu com suas obrigações.
Apenas o ego do orador ou emanador que se sente satisfeito por achar que fez algo útil pela humanidade. Quem dera tudo se resolvesse de forma tão simples. Fale de emanações de energia ou orações para quem está passando fome, morrendo, sendo torturado ou estuprado; acho que a situação deles não vai se resolver por estas técnicas, não é? Engraçado é o conceito de que tudo que você pensa, você atrai. Que a pessoa só recebeu aquilo que ela desejou para os outros, se recebeu o mal, então desejou o mal. Então uma mulher estuprada ou uma criança vítima de pedofilia emanaram energias de estupro e pedofilia? Não faz sentido, não acha?
Nestes aspectos de desejar, agir e receber coisas boas e ruins, não há efeitos de energias místicas que possam atrair tais situações ao cotidiano. Sua ocorrência se trata apenas do fato de vivermos em uma sociedade que exige múltiplas interações entre as pessoas, em que acabam valendo conceitos de teoria dos jogos, em que interagimos mais ou menos com as pessoas dependendo dos benefícios ou malefícios que obtemos com estas.
Tentamos ser bons e vemos como as outras pessoas nos correspondem, se não forem boas conosco, as evitamos. Pura e simplesmente interações sociais. Nada de energias atraindo ou afastando coisas, apenas nós mesmos selecionado nossas companhias. E tentando escapar de ações rotineiras ou ao acaso que permeiam a vida das pessoas e estão fora de suas capacidades de controle. Talvez seja o aspecto mais frustrante da vida o fato de que não temos completo controle sobre tudo o que nos diz respeito.
Além do mais, querer espalhar o bem simplesmente com o objetivo de que ele volte para você, é bastante egoísta, não acha? Ou seja, vou fazer o bem, pois o universo trará coisas boas para mim. Quanto egoísmo. Será que as pessoas não conseguem fazer o bem pelo simples fato de perceberem que isso não é prejudicial aos demais e sim benéfico? Por que as pessoas sempre querem que o bem volte para si? Seja na forma de "energias" inexistentes ou em recompensas após a morte? Parece puro interesse próprio essa ideia de faça o bem para ele voltar para você ou faça o bem para ir para o céu. Não é necessário "energia", deus, recompensas celestiais, para saber o que é o bem e para fazer o bem, basta ter um pouco de empatia e solidariedade para com os demais.

domingo, 7 de maio de 2017

Afinal, ingerir líquidos em excesso faz mal?

Autor: Mario Arthur Favretto


Sempre escutamos que precisamos tomar ao menos dois litros de água por dia, ou que quanto mais água tomarmos melhor, ou ainda, que devemos sempre ficar bem hidratados. A origem destas informações é obscura, e muitas vezes se baseia na ideia de que água não faz mal, independente da quantidade. Tratando-se, pois, de uma informação errônea.
Quanto exatamente de líquidos nós precisamos? Bom, uma estimativa média é de que absorvemos por meio de líquidos em média 1600 ml, de alimentos 700 ml, e mais água metabólica de reações químicas do corpo, 200 ml, uma ingestão (em média) diária de 2500 ml. E como perdemos essa água? Excretamos em média nas fezes 100 ml, expiramos pelos pulmões 300 ml, evapora-se da superfície da pele 600 ml, e na urina 1500 ml. Assim, nosso organismo mantém certo equilíbrio hídrico1. Estes valores são aproximações médias, em geral cálculos de desidratação e hidratação são baseados na massa corpórea da pessoa2. Porém aparentemente alguém viu esse valor total de líquidos ingeridos e produzidos pelo corpo e passou a disseminar a ideia de ingestão de 2 litros de água por dia.


Mas devemos ficar tomando e tomando água constantemente? Bom, a princípio, se não há algum problema de saúde que possa prejudicar o equilíbrio hídrico de nosso corpo e a forma como ele regula sua homeostase, o próprio organismo produz sinais indicativos da necessidade de ingestão de água. Em nosso corpo o hipotálamo controla a sede, por meio da detecção de alterações na pressão osmótica nos tecidos corporais (ou seja, se eles estão com água suficiente ou se estão murchando, faltando perdendo água1.
Um desses sinais utilizados pelo hipotálamo é a diminuição do volume sanguíneo, que causa uma queda da pressão sanguínea; isso estimula os rins a liberar renina (uma enzima), que promove a produção de angiotensina II (um peptídeo). Os osmorreceptores no hipotálamo, que detectam as variações na pressão osmótica, e o aumento da quantidade de angiotensina II no sangue estimulam o centro de sede do hipotálamo a produzir essa sensação, um alerta de que o corpo deve ingerir mais líquidos1, 3.
Os neurônios na boca também detectam a secura nesta parte do corpo devido ao fluxo reduzido de saliva, então aumentando a sensação de sede. Em pessoas idosas ou crianças essa sensação pode ser mais lenta do que a necessidade do corpo, daí serem grupos que demandam maiores cuidados com a hidratação1, 3. Além disso, o processo de desidratação pode ser mais rápido em dias com temperatura muito elevada ou muito baixa (quando o ar também pode ficar mais seco), podendo em alguns casos levar a pessoa ao óbito caso não tenha cuidado para manter-se hidratada4.
Porém nem tudo é um paraíso na água. Quando uma pessoa consome água constantemente, de modo mais rápido do que os rins podem excretá-la (a taxa máxima do fluxo de urina é cerca de 15 ml/min) ou quando sua função renal é deficiente, a diminuição da concentração de Na+ (íons sódio) do líquido intersticial (líquido localizado entre as células) faz a água passar, por osmose, desse líquido para o fluído intracelular1. Fato que pode resultar na intoxicação por água, um estado em que a água corporal excessiva leva as células a incharem perigosamente, produzindo convulsões, coma e, eventualmente, morte. Por isso que para evitar essa terrível sequência de eventos a terapia de reidratação oral ou endovenosa inclui uma pequena quantidade de sal1, 5.
Com estas informações percebemos que na ausência de problemas de saúde o próprio organismo trata de regularizar sua hidratação e que muitas vezes, dadas as circunstâncias, o excesso de água pode ser tão prejudicial quanto sua falta, ao contrário do que muitas dietas podem pregar, alegando que água é fonte de apenas benefícios e esquecendo-se de que muitas vezes o que diferencia o remédio do veneno é a dose.


Referências:
1 - Tortora, G.J.; Gabrowski, S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. Porto Alegre: Artmed. 718p.
2 – Cheuvront, S.N.; Kenefick, R.W. 2014. Dehydration: physiology, assessment, and performance effects. Comprehensive Physiology 4: 257-285.
3 - Thomas, D.R.; Cote, T.R.; Lawhorne, L.; Levenson, S.A.; Rubestein, L.Z.; Smith, D.A.; Stefanacci, R.G.; Tangalos, E.G.; Morley, J.E. 2008. Understanding clinical dehydration and its treatment. The Journal of Post-Acute and Long-Term Care Medicine 9(5): 292-301.
4 - Lim, Y.H.; Park, M.S.; Kim, Y.; Kim, H.; Hong, Y.C. 2014. Effects of cold and hot temperature on dehydration: a mechanism of cardiovascular burden. International Journal of Biometeorology 59(8): 1035-1043.
5 – Évora, P.R.B.; Reis, C.L.; Ferez, M.A.; Conte, D.A.; Garcia, L.V. 1999. Distúrbios do equilíbrio hidroeletrolitico e do equilíbrio acidobásico – uma revisão prática. Medicina 32: 451-469.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Equívocos da medicina alternativa, complementar e nutrição – parte I

Autor: Mario Arthur Favretto


Um dos problemas mais comuns em relação às ditas medicinas alternativas e/ou complementares, aos naturólogos e também aos nutricionistas é a aparente falta de conhecimento por parte de alguns (não vou generalizar) destes profissionais sobre o método científico e sobre cuidados para realização de um bom experimento que possua boas bases estatísticas. E sobre como estas características influenciam em suas respectivas afirmações relacionadas à saúde das pessoas. É comum observarmos as pessoas fazendo associações de falsa correlação e também de correlações espúrias para justificar que um determinado alimento ou produto faz mal e outro faz bem. Não que esse problema também não ocorra em outras formações, como muitos de meus colegas de formação (biólogos), por exemplo.
É bem comum encontrarmos a afirmação de que refrigerantes de cola (e.g. coca-cola, pepsi, etc) vão corroer os ossos da pessoa, e como base para isso usam o exemplo de deixar um osso de galinha dentro de um copo com estes produtos, e após um tempo, este estaria parcialmente deteriorado ou emborrachado. A coca-cola tem um pH de em média 1,78, podendo chegar 3 (Skupien et al,, 2009), enquanto o pH médio do estômago é em média 2 (Tortora & Gabrowski, 2006), afinal, temos ácido clorídrico no estômago. Ou seja, o maior risco poderia ser em efeitos destes refrigerantes sobre os dentes e não sobre os demais ossos do corpo, tendo em vista que estas bebidas não vão entrar em contato com eles e há ácido de igual potência e em alguns casos mais forte no estômago. Salvo algum efeito prejudicial de outras substâncias presentes nestas bebidas, mas no assunto em questão, a afirmação aparenta ser um tanto quanto exagerada.
Essa afirmativa seria o mesmo que dizer que como o oxigênio provoca oxidação (ferrugem) de barras de ferro, não deveríamos deixá-lo entrar em contato com o nosso corpo. Afinal, se enferruja algo forte como o ferro, o que o oxigênio poderia fazer com nossos pulmões? Ou seja, só porque algo é prejudicial em certos aspectos ou para certos materiais, não significa que também o será para nosso organismo. Devemos analisar o contexto de real aplicação à nossa saúde, ninguém vai deixar de respirar só porque oxigênio participa do processo de “enferrujar” ferro.

Figura 1. “Isto é ferrugem. Ela é causada pelo oxigênio e se chama oxidação. Nós respiramos oxigênio todos os dias. Se ele pode fazer isso com uma corrente, então imagine o que ele pode fazer para os seus pulmões. Compartilhe para aumentarmos a consciência sobre os perigos do oxigênio.”

De mesma forma que nem tudo que parece ser ruim em um alimento vai nos prejudicar, nem tudo que ele tem de bom vai nos beneficiar. Exemplificando, em relação ao uso de suplementos vitamínicos e minerais, nosso organismo não possui um mecanismo para armazenar muitas dessas substâncias e, algumas das que são absorvidas, quando em excesso, também podem fazer mal. Aprofundando esse exemplo, sobre o consumo de cálcio como suplemento alimentar para reduzir os efeitos da osteoporose, será que realmente funciona? O armazenamento do cálcio ou não nos ossos e seu uso em outras atividades do corpo é controlado por hormônios, como hormônio paratireoideo, calcitonina e calcitriol (vitamina D; Tortora & Gabrowski, 2006).
Estes hormônios em conjunto vão definir quanto de cálcio dos ossos será liberado na corrente sanguínea para atividades do corpo, quanto será reabsorvido para os ossos e quanto será absorvido nos intestinos a partir dos alimentos (Tortora & Gabrowski, 2006). Assim, se não houver um controle hormonal, não haverá a absorção e deposição do cálcio nos ossos, tornando o consumo excessivo de cálcio ineficiente. Isto também é o que apontam revisões sistemáticas e meta-análises que indicam certa controvérsia sobre a real eficiência no consumo de cálcio, e que aparentemente seu consumo pode resultar em mais efeitos benéficos quando em conjunto com suplemento de vitamina D (Borrelli & Ernst, 2010). Ou este tratamento combinado com exercícios físicos, que podem colocar os ossos em uma situação de estresse, responsável por aumentar a deposição de cálcio em suas estruturas (Tortora & Gabrowski, 2006; Borrelli & Ernst, 2010).
Além disso, essas questões também levantam dúvidas. Considerando que se muitos problemas de pedras nos rins resultam no acúmulo de sais minerais, tal formação poderia resultar deste consumo excessivo de cálcio? Bem, em excesso, a suplementação de cálcio e vitamina D pode realmente pode resultar na formação deste problema (Gallagher et al., 2014; Letavernier et al., 2016). Ou seja, ao invés de melhorar uma situação, o uso descontrolado de produtos complementares pode piorar a saúde das pessoas.
Desta forma, é possível perceber que, apesar do que é pregado por certos profissionais da saúde de que para tudo existe uma definição rígida daquilo que é saudável ou prejudicial, o limiar entre estas duas situações parece ser muito mais tênue. Um refrigerante que é visto como um vilão, em pouca quantidade pode ser inofensivo. Enquanto que a ingestão de suplementos de sais minerais e vitaminas, vistos como produtos altamente benéficos, podem resultar em problemas de saúde. Nestas situações, talvez a melhor solução seja uma variação de uma frase atribuída à Paracelso que diz: “todas as substâncias são venenos; não existe uma que não seja veneno. A dose certa diferencia um veneno de um remédio”. Mas, é claro, tal dose depende de que tipo de produto se está falando.

Referências:
Borrelli, F.; Ernst, E. 2010. Alternative and complementary therapies for the menopause. Maturitas 66: 333-343.
Gallagher, J.C.; Smith, L.M.; Yalamanchili, V. 2014. Incidence of hypercalciuria and hypercalcemia during vitamin D and calcium supplementation in older women. Menopause 21(11): 1173-1180.
Letavernier, E.; Verrier, C.; Goussard, F.; Perez, J.; Huguet, L.; Hayman, J.P.; Baud, L.; Bazin, D.; Daudon, M. 2016. Calcium and vitamin D have a synergistic role in a rat model of kidney stone disease. Kidney International 90(4): 809-817.
Skupien, J.A.; Bergoli, C.D.; Pozzobon, R.T.; Brandão, L. 2009. Avaliação do pH de refrigerantes do tipo normal e light. Saúde 35(2): 33-36.
Tortora, G.J.; Gabrowski, S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. Porto Alegre: Artmed. 718p.

domingo, 3 de julho de 2016

Livro: "Borboletas e mariposas de Santa Catarina: uma introdução"

Foi publicado no dia 06 de junho de 2016, o novo livro dos autores deste blog “Borboletas e mariposas de Santa Catarina: uma introdução”, no livro foram registradas 1637 espécies de borboletas e mariposas para Santa Catarina, e ainda são apresentadas informações sobre origem, evolução e biologia em geral da ordem Lepidoptera (borboletas e mariposas) e informações de biologia geral e/ou ecologia de 37 famílias desta ordem com mais de 300 fotos. O livro pode ser como guia de identificação para algumas destas espécies que foram registradas.

Abaixo seguem os links para download gratuito ou compra de exemplar impresso.

O livro está disponível para venda no Clube de Autores, em formato A4 com imagens coloridas, no seguinte link: https://www.clubedeautores.com.br/book/210582--Borboletas_e_mariposas_de_Santa_Catarina?topic=horror#.V3jtx_krLIU

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Vacinas e (ainda) o Desconhecimento Científico


Autor: Mario Arthur Favretto


Estima-se que do começo do século 20 até a década de 1970 cerca de 300 milhões de pessoas morreram de varíola, após diversas campanhas de vacinação essa doença foi erradicada do mundo e apenas um caso foi registrado após 1978 (Burton, 2002). Entretanto, sempre em épocas de vacinação ouvimos os velhos comentários em meio à população, que vacinas fazem mal, que são uma conspiração do governo para eliminar certos grupos da população.
Muito disso vem devido ao desconhecimento da população sobre a ciência e sobre biologia, neste caso, sobre o funcionamento das vacinas e sobre o próprio funcionamento do corpo humano. Alia-se a estas questões o fato de muitas pessoas não visualizarem mais casos de muitas das doenças para as quais elas são imunizadas, assim deixando de dar a devida importância às vacinas.
Mas como funcionam as vacinas? As vacinas são feitas com vírus ou bactérias mortos ou atenuados (enfraquecidos) e que assim não resultarão no desenvolvimento da doença nas pessoas que receberão a dose em seus corpos. Elas servem, dizendo de forma bem simples, para treinarmos o nosso sistema imunológico a lutar contra infecções causadas por vírus ou bactérias. Quando injetamos esse material em nosso organismo isto desencadeia uma reação de nosso sistema imunológico que vai “lutar” contra o material e durante esse processo vai fazer um reconhecimento e criar células especiais que vão memorizar como eram esses vírus e bactérias que foram injetados no corpo, mesmo eles estando mortos e/ou fragmentados (Burton, 2002; Sallusto et al., 2010).
Criada essa memória em nosso sistema imunológico, quando por algum infortúnio formos infectados com um vírus ou bactéria vivos, seja pelo vírus da gripe Myxovirus influenzae ou pela bactéria do tétano Clostridium tetani, nosso sistema imunológico reconhecerá o patógeno.  Esse reconhecimento será feito mais rapidamente e devido à memória imunológica também produzirá anticorpos de forma mais rápida e eficiente não permitindo que os patógenos se proliferem pelo corpo, evitando, dessa forma, o desenvolvimento da doença e seus sintomas (Burton, 2002; Sallusto et al., 2010).
Como injetamos um material estranho em nosso corpo, as vacinas podem resultar em efeitos adversos? Muitas pessoas acham que algumas vacinas (tríplice viral) poderiam causar autismo em crianças, porém essa crença não tem fundamento, mais de 20 estudos epidemiológicos realizados em diferentes países mostraram que elas não causam esse problema nas crianças, o autismo não é ocasionado por nenhuma reação do sistema imune (Gerber & Offit, 2009). O autismo é hereditário e uma de suas principais causas é genética, associada com questões ambientais e epigenéticas (Hall & Kelley, 2014).
Efeitos adversos sempre poderão ocorrer, mas possuem efeitos menores sobre o corpo da pessoa do que se ela adquirisse alguma doença que poderia ter evitado tomando uma vacina (Brasil, 2014). Afinal, todo medicamento que uma pessoa ingere pode resultar em efeitos adversos, desde uma “simples” aspirina (ácido acetilsalicílico), que, conforme a bula indica, em doses elevadas foi registrado que 10 a 20% dos pacientes tiveram náusea, vômito e dor gástrica, e hemorragias ocultas em 70% dos pacientes. Ou o paracetamol, que também conforme indica a bula, devido a sua hepatotoxicidade (ser tóxico para o fígado) em casos muito raros pode resultar em “êxito letal” (morte) e também reações de hipersensibilidade (erupções cutâneas, urticárias, eritema, etc.).
Ou a dipirona, que pode resultar em reações alérgicas e em casos raros em agranulocitose, uma redução dos glóbulos brancos do sangue, que em casos graves pode resultar no aparecimento de feridas em mucosas, no intestino, na garganta e na pele, representando risco de vida. Até mesmo os tão venerados remédios naturais podem resultar em diversas reações que colocam em risco a vida das pessoas (ver links de blogs nas referências: Favretto, 2015; Santos, 2016; Orlandin, 2016). Ou seja, riscos muitas vezes maiores do que os das próprias vacinas.
Porém no momento de dor e sofrimento não pensamos duas vezes em usar os remédios para melhorarmos nossa saúde independente de possíveis reações adversas, mas como as vacinas são para a prevenção, talvez a ausência de sofrimento e dor por doenças seja uma das motivações de resistência por parte das pessoas. Então se você é uma destas que não aprecia vacinas olhe para as fotos abaixo, muitas dessas fotos são de doenças para as quais tomamos vacinas para ficarmos imunizados. Aposto que muitas delas você nem imaginava como seriam.
Figura 1. Paciente sofrendo fortes espasmos musculares causados pelo tétano. Fonte: Charles Bell (1809).

Figura 2. Criança com sequela da poliomielite (paralisia infantil) em sua perna. Fonte: CDC (1994).

Figura 3. Paciente com varíola. Fonte: John Noble Jr – CDC (1967).


Figura 4. Criança com rubéola. Fonte: Jim Goodson – CDC (2014).
Figura 5. Criança com difteria. Fonte: Barbara Rice – CDC.

Após olhar as fotos, retornemos novamente ao ponto do não encontro com casos de pessoas doentes, isto nos remete a algo emocional, como as pessoas não veem mais o sofrimento causado por muitas dessas doenças, suponho que elas acabaram se esquecendo do mal que elas ocasionavam. Por exemplo, há muitas décadas que não temos mais casos de poliomielite no Brasil, e muitas outras doenças infantis possuem um número bastante reduzido de casos. É possível que essa aparente seguridade de ausência de doenças dê uma falsa impressão às pessoas de que estes males não retornarão.
No entanto, com o avanço de movimentos antivacina e da falta de elucidação sobre as vacinas, diversas pessoas podem começar a recusar este recurso, especialmente em épocas de mídias sociais em que teorias conspiratórias sem fundamento algum se espalham rapidamente. Levanto a hipótese de que se as campanhas de vacinação apresentassem de forma mais clara visualmente os sintomas das doenças, como nas fotos acima, é possível que mais pessoas se prontificassem a tomar vacinas. Simplesmente apresentar um grupo de sintomas abstratos e textos escritos para uma população que possui um elevado percentual de analfabetos funcionais e científicos pode não ser o bastante para manter o desempenho de campanhas de vacinação. Infelizmente, como muitos movimentos antivacina apelam para a emoção das pessoas, também resta para as ações pró-vacina não apenas mostrar os dados científicos, mas também fazer esse apelo. Afinal as pessoas se identificam e tem mais empatia com um indivíduo visível do que com números (Pinker, 2013), fato que pode resultar em melhores resultados de campanhas de imunização.

Referências
Brasil. 2014. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. Brasília: Ministério da Saúde. 250p.
Burton, D.R. 2002. Antibodies, viruses and vaccines. Nature Review, Immunology 2: 706-713.
Favretto, M.A. 2015. A farsa dos sucos Detox e os riscos da fitoterapia. Ciência & Liberdade, link http://cienciaeliberdade.blogspot.com.br/2015/06/a-farsa-dos-sucos-detox-e-os-riscos-da.html
Gerber, J.S.; Offit, P.A. 2009. Vaccines and autism: a tale of shifting hypotheses. Clinical Infectious Diseases 48: 456-461.
Hall, L.; Kelley, E. 2014. The contribution of epigenetic to understanding genetic factors in autism. Autism 18: 872-881.
Orlandin, E. 2016. Os perigos da ingestão de medicamentos naturais. Ciência & Liberdade, link http://cienciaeliberdade.blogspot.com.br/2016/05/os-perigos-da-ingestao-de-medicamentos.html
Pinker, S. 2013. Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras. 1087p.
Sallusto, F.; Lanzavecchia, A.; Araki, K.; Ahmed, R. 2010. From vaccines to memory and back. Immunity 33: 451-463.
Santos, E.B. 2016. É seguro beber suco verde (detox)?. Emagrecendo Cons(Ciência), link http://emagrecimentocomciencia.blogspot.com.br/2016/01/e-seguro-beber-suco-verde-detox.html

sexta-feira, 6 de maio de 2016

OS PERIGOS DA INGESTÃO DE MEDICAMENTOS NATURAIS


Autor: Elton Olandin

O apelo à natureza, ou falácia naturalista, é a crença de que o que é natural é bom. E o Argumentum ad Antiquitatem, é a falácia de afirmar de que algo é bom, ou verdadeiro só porque é antigo. Baseados nestas crenças milhões de pessoas em todo o mundo usam remédios a base de plantas (fitoterápicos), seguindo tradições originadas há milênios. No entanto, pesquisadores da Baylor College of Medicine e Stony Brook University, em artigo publicado no dia 25 de abril de 2016, na revista Science & Society, demonstram que a tradição do uso de ervas, não é garantia de segurança.

No artigo intitulado Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia (Riscos globais de remédios à base de plantas: lições de Aristolochia), Grollman e Marcus contam um pouco da história e do uso desta planta na medicina. Aristolochia é um gênero de planta com mais de 500 espécies pertencente a família Aristolochiaceae e possui distribuição mundial. A primeira descrição da planta foi feita na Grécia antiga, por um aluno de Aristóteles (371–287 AEC), tendo registros de seu uso em diferentes partes do mundo.

Os estudos e reconhecimento da toxicidade e carcinogenicidade da família a qual pertence esta planta só iniciaram a partir de 1990 quando 100 mulheres da Bélgica vieram a óbito depois de desenvolverem doença renal crônica. As investigações demonstraram que todas haviam passado por um regime de perda de peso, utilizando uma mistura de ervas usada na medicina tradicional chinesa. Dentre estas ervas, estava a Aristolochia.

Outro estudo demonstrou que Aristolochia clematitis era causadora de nefropatia em vilarejos de países da região dos Balcãs. Nesses vilarejos os moradores têm por costume moer sementes de A. clematitis misturado ao trigo. Os pesquisadores demonstraram que a ingestão de ácidos aristolóquicos presentes nesta família de planta, em conjunto com a suscetibilidade genética dos indivíduos podem levar a mutações no gene supressor tumoral p53, gene responsável por evitar a propagação de células defeituosas. Estudos também demostraram várias evidências da relação entre a ingestão de fitoterápicos contendo ácidos aristolóquicos e carcinomas uroteliais no Taiwan.

No Brasil a Aristolochia spp. é popularmente conhecidas por capitãozinho, cipó-jarrinha, papo-de-peru, cipó-mil-homens, milhomes, cipó-milome, papo-de-galo, sendo largamente utilizada na medicina popular. Uma pesquisa rápida no Google Acadêmico usando as palavras-chave etnobotânica e Aristolochia verificou a existência de dezenas de artigos, dissertações e teses, citando esse gênero como sendo largamente utilizado pela população, em praticamente todo o país. Também é encontrada facilmente a venda na internet, em vários sites “especializados” na venda de fitoterápicos. Dentre os usos mais comuns são citados: para auxiliar a digestão, falta de apetite, picada de cobra, com ação abortiva, na regulação das regras menstruais, febres, diarréias, convulsões epilépticas, histerias e reumatismo, diabete, nas gripes, infecções, mordidas de animais e para parar de fumar, no tratamento de doenças venéreas, pedra na vesícula, dispepsia, sinusite e dor de cabeça. Apesar de toda a problemática envolvendo o uso destas plantas, a maioria desses trabalhos focava apenas na sabedoria popular, e na importância deste conhecimento e não no efeito das substâncias químicas presentes na planta.

Além das pesquisas envolvendo Aristolochia spp., outros estudos demonstram a importância de maiores investigações a respeito do tema. Em editorial à revista European Journal of Clinical Pharmacology, Edzard Ernst (2006) chama a atenção para os perigos do uso excessivo de fitoterápicos. E em artigo de revisão na revista Clinical Medicine, Paul Posadzki, Leala Watson e Edzard Ernst (2013), analisaram os efeitos adversos de 50 espécies de plantas utilizadas como fitoterápicos, concluindo que todas possuíam algum efeito adverso em menor ou maior grau. Essas pesquisas demonstram que o conhecimento empírico baseado na tradição não deve ser usado como autoridade. E que a lição dos riscos para a saúde causados pelo uso de Aristolochia spp. deve levar os órgãos responsáveis a solicitarem mais investigação sobre a segurança e eficácia das plantas medicinais.



Aristolochia fimbriata Fonte da imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Aristolochia elegans  Fonte da Imagem: Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Referências:

ERNST, Edzard. Herbal medicines–they are popular, but are they also safe?.European Journal of Clinical Pharmacology, v. 62, n. 1, p. 1-2, 2006.

GROLLMAN, Arthur P.; MARCUS, Donald M. Global hazards of herbal remedies: lessons from Aristolochia. EMBO reports, v. 17, n. 5, p. 619-625, 2016.

POSADZKI, Paul; WATSON, Leala K.; ERNST, Edzard. Adverse effects of herbal medicines: an overview of systematic reviews. Clinical medicine, v. 13, n. 1, p. 7-12, 2013.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Possessão, transtornos cerebrais e o problema da alma imaterial


Autor: Mario Arthur Favretto


Ao longo de toda sua existência, o ser humano tem se deparado com diversos fenômenos que não sabe explicar. Não havendo um corpo de conhecimentos conciso que pudesse ser utilizado para tal e sendo um símio imaginativo que é, desenvolveu diversas explicações sobrenaturais numa tentativa de criar respostas para os problemas que o rondavam. Desta forma, fenômenos naturais como trovões e secas, foram atribuídos a deuses zangados, bem como outras entidades sobrenaturais.
Doenças, por serem ocasionadas por seres vivos que não são visíveis a olho nu, ou disfunções desconhecidas no funcionamento do organismo humano, foram atribuídas a entidades sobrenaturais malignas ou justiceiras. Atualmente, com os avanços das ciências biológicas e médicas, muitas destas doenças que se acreditava serem ocasionadas por seres sobrenaturais, passaram a ser melhor entendidas, onde vírus, bactérias e disfunções psiquiátricas/neurológicas tornam-se explicações corriqueiras.
Conforme mencionado em texto anterior neste blog, pessoas com epilepsia, por exemplo, eram consideradas pessoas sob influência de deuses ou espíritos malignos na antiguidade e idade média, ou como pessoas possuídas por demônios, conforme afirma a bíblia cristã sobre a epilepsia, ainda utilizada atualmente (Bíblia cristã - Mateus 17: 15-18). Porém, mesmo durante períodos antigos, muitos homens ilustres procuraram uma explicação científica para a causa dessa doença, conforme diversos dados apresentados por Magiorkinis e colaboradores (2010), referente à abordagem da epilepsia no antigo Egito, Babilônia, Grécia e Roma. Atualmente, pessoas com epilepsia passaram a ser tratadas de forma digna com medicamentos e um acompanhamento médico, tratamentos desenvolvidos pela ciência.
Percebe-se então que desde a antiguidade, apesar dos esforços depreendidos por diversos pesquisadores, e de diversas fontes de informações e conhecimentos gerados, a explicação sobrenatural para doenças sem causa visível aparente continuou sendo utilizada em detrimento da realidade. Desta forma, certas doenças foram consideradas como comprovações dos anseios pela existência do sobrenatural que tantas pessoas possuem.
Um dos primeiros aspectos a analisarmos nesta situação é que possessão implica na existência de almas ou outras entidades imateriais não detectáveis por nenhuma tecnologia atualmente e que de certa forma poderia interagir com a matéria. Assim, supostamente um demônio ou alma penada, existiria de forma imaterial, mas mesmo essa imaterialidade interagiria com a matéria, alterando o comportamento de uma pessoa e utilizando seu corpo para fins demoníacos. Esta suposta possessão acaba implicando na existência de uma também suposta alma humana que seria de certa forma tirada do corpo humano, relegada a algum canto dentro da própria pessoa, enquanto a alma invasora controlaria o corpo da pessoa.
Porém, sobre o problema da alma devemos abordar as afirmações de Costa (2005):

“[...] segundo a lei da conservação da energia, a quantidade de energia do Universo deve permanecer a mesma; mas se alguma energia do mundo material se perde na alma, ou esta a introduz no mundo material, essa lei precisa ser revista. Outro exemplo: a teoria da evolução ensina que nós evoluímos a partir de espécies inferiores. Quando teria então surgido a alma? Como explicar, ademais, que precisamos de um cérebro tão grande, se uma alma inextensa [e diríamos aqui imaterial*] com certeza caberia em um cérebro do tamanho de um grão de ervilha? Como explicar o efeito de drogas e medicamentos na mente? Como explicar que uma doença como a de Alzheimer, que reduz o cérebro até um terço do seu tamanho, tenha efeitos tão devastadores sobre a atividade mental? Como explicar, em suma, o papel do cérebro? [...]” * - Adendo meu.

Se existisse uma alma imaterial e nela estivessem contidas todas as nossas lembranças, sentimentos, desejos, tudo que compõe nossa personalidade, como então doenças neurodegenerativas poderiam influenciar estas aptidões? Se existisse uma alma, como uma pessoa com mal de Alzheimer poderia perder suas memórias? Se alma possui todas estas características que serão usadas em um plano pós-vida, então não haveria motivos para nos preocuparmos com doenças e transtornos mentais. Só por estas afirmações já percebemos que as respostas para estas dúvidas implicam na inexistência de uma alma, e assim, na inexistência deste fenômeno de possessão.
O cérebro é um conjunto de neurônios que, em seu funcionamento como um todo, pode permitir um processo de emergência, onde encontramos então a consciência e por meio destas interações entre neurônios temos a formação do que chamamos de “eu”, onde não há uma divisão entre mente e cérebro, pois ambos são a mesma entidade física. Porém, longe de ser um órgão perfeito o sistema nervoso de todos os animais está sujeito a falhas, em especial por meio de excesso ou falta de produção de certos neurotransmissores que implicam em alterações na forma como o cérebro funciona. Por vezes acontecendo uma ruptura com a realidade o que poderia implicar no surgimento de alucinações, em caráter mais frequente como esquizofrenia ou em eventos isolados como surtos psicóticos, que ainda em algumas ocasiões podem ser considerados não-patológicos. Para tanto, basta que ocorram alterações no funcionamento de suas vias dopaminérgicas, por exemplo, e toda a percepção da realidade por parte do indivíduo é alterada (Brandão, 2004).
Estes estados de consciência alterada, muitas vezes seguidos de alucinações, podem ser induzidos por sugestão e manifestados por estado sonambúlico, que podem resultar em modificações deste estado por meio de respostas verbais e físicas dadas as injunções sugestivas. O indivíduo sugestionável assume de forma temporária outras identidades, confusão mental ou sonolência, além de grande desgaste físico e amnésia ao sair do processo (Nina-Rodrigues apud Almeida et al., 2007), provavelmente sendo estas induções responsáveis pelos êxtases e transes religiosos ou eventuais “possessões” em cultos.
Tal apropriação de pessoas sugestionáveis a estas situações é uma deturpação de um provável estado de saúde mental debilitado, em que as pessoas que deveriam procurar auxílio médico e não participar destas atividades, acabam sendo usadas como atrações religiosas devido a falta de conhecimento científico da grande maioria da população. Assim permanecemos como na antiguidade, com doenças sendo confundidas com possessões demoníacas.
Observe que em estudo com 115 médiuns em São Paulo, Almeida (2004) constatou que:

“[...] a mediunidade provavelmente se constitui numa vivência diferente do transtorno de identidade dissociativa. A maioria teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e estas, atualmente, se caracterizam por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia.”

Desta forma, a alucinação não é necessariamente algo patológico, estima-se que 10-30% da população sem patologias mentais tenham tido alguma experiência deste tipo (Almeida, 2004). Essas ocorrências de “deslizes” no funcionamento cerebral contribuem para que se espalhe a ideia de visões sobrenaturais e eventuais possessões. Principalmente associadas a um ambiente de falta de conhecimento científico por parte da população e ao profundo desejo de acreditar na existência do sobrenatural, que de certa forma, seria uma confirmação das expectativas em relação à existência de um pós-morte.
Nesta discussão seria ainda importante mencionar a síndrome de Gilles de la Tourette, doença cujos sintomas já foram definidos como possessão demoníaca (Cavana e Ricards, 2013). Seus sintomas são similares aos descritos no livro Malleus Malleficarum para pessoas que supostamente estariam possuídas por um demônio (Orsi, 2011). Essa doença é um transtorno neuropsiquiátrico que geralmente ocorre na infância, mas que se prolonga para a idade adulta, ocasionando tiques motores e vocais, ocasionada por alterações neurofisiológicas e neuroanatômicas (Fen et al., 2001). Um vídeo de uma pessoa com um caso extremo desta síndrome pode ser visto abaixo. Após ver o vídeo, refletindo sobre a situação em que estas pessoas e outras que apresentam síndromes e alterações no funcionamento bioquímico e fisiológico do cérebro se encontram, não deveríamos nos esforçar para que houvesse um maior entendimento público sobre o que é ciência e medicina de verdade, e tentar reduzir a difusão de pseudo-ciências, pseudo-medicinas e crendices? O que seria de uma pessoa dessas em uma sociedade ainda tomada por crenças plenas na existência de demônios? Seria exorcizada e queimada em uma fogueira? A compreensão mais aprofundada da ciência, medicina e a prática do ceticismo diante de crenças são fundamentais para garantir que pessoas com transtornos neurológicos/neuropsiquiátricos passem a ter um atendimento humanizado e correto. Que não sejam mais vistas como aberrações demoníacas em palcos de igrejas ou rituais de exorcismo, e sim recebam o tratamento adequado para que possam seguir de forma digna com suas vidas.





Referências
Almeida, A.A.S.; Oda, A.M.G.R.; Dalgalarrondo, P. 2007. O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista de Psiquiatria Clínica 34(supl. 1): 34-41.
Almeida, A.M. 2004. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese. Departamento de Psiquiatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. 278p.
Brancão, M.L. 2004. As bases biológicas do comportamento: introdução à neurociência. Ed. Gráfica Pedagógica Universitária. 244p.
Cavana, A.E.; Rickards, H. 2013. The psychopathological spectrum of Gilles de la Tourette syndrome. Neuroscience and Behavioral Reviews 37: 1008-1015.
Costa, C. 2005. Filosofia da Mente. Ed. Zahar. 67p.
Fen, H.C.; Barbosa, E.R.; Miguel, E.C. 2001. Síndrome de Gille de la Tourette: estudo clínico de 58 casos. Arquivos de Neuropsiquiatria 59(3-B): 729-732.
Magiorkinis, E.; Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity. Epilepsy & Behavior 17: 103-108.
Orsi, C. 2011. O livro dos milagres: a ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos. Rio de Janeiro: Vieira & Lent.