domingo, 7 de maio de 2017

Afinal, ingerir líquidos em excesso faz mal?

Autor: Mario Arthur Favretto


Sempre escutamos que precisamos tomar ao menos dois litros de água por dia, ou que quanto mais água tomarmos melhor, ou ainda, que devemos sempre ficar bem hidratados. A origem destas informações é obscura, e muitas vezes se baseia na ideia de que água não faz mal, independente da quantidade. Tratando-se, pois, de uma informação errônea.
Quanto exatamente de líquidos nós precisamos? Bom, uma estimativa média é de que absorvemos por meio de líquidos em média 1600 ml, de alimentos 700 ml, e mais água metabólica de reações químicas do corpo, 200 ml, uma ingestão (em média) diária de 2500 ml. E como perdemos essa água? Excretamos em média nas fezes 100 ml, expiramos pelos pulmões 300 ml, evapora-se da superfície da pele 600 ml, e na urina 1500 ml. Assim, nosso organismo mantém certo equilíbrio hídrico1. Estes valores são aproximações médias, em geral cálculos de desidratação e hidratação são baseados na massa corpórea da pessoa2. Porém aparentemente alguém viu esse valor total de líquidos ingeridos e produzidos pelo corpo e passou a disseminar a ideia de ingestão de 2 litros de água por dia.


Mas devemos ficar tomando e tomando água constantemente? Bom, a princípio, se não há algum problema de saúde que possa prejudicar o equilíbrio hídrico de nosso corpo e a forma como ele regula sua homeostase, o próprio organismo produz sinais indicativos da necessidade de ingestão de água. Em nosso corpo o hipotálamo controla a sede, por meio da detecção de alterações na pressão osmótica nos tecidos corporais (ou seja, se eles estão com água suficiente ou se estão murchando, faltando perdendo água1.
Um desses sinais utilizados pelo hipotálamo é a diminuição do volume sanguíneo, que causa uma queda da pressão sanguínea; isso estimula os rins a liberar renina (uma enzima), que promove a produção de angiotensina II (um peptídeo). Os osmorreceptores no hipotálamo, que detectam as variações na pressão osmótica, e o aumento da quantidade de angiotensina II no sangue estimulam o centro de sede do hipotálamo a produzir essa sensação, um alerta de que o corpo deve ingerir mais líquidos1, 3.
Os neurônios na boca também detectam a secura nesta parte do corpo devido ao fluxo reduzido de saliva, então aumentando a sensação de sede. Em pessoas idosas ou crianças essa sensação pode ser mais lenta do que a necessidade do corpo, daí serem grupos que demandam maiores cuidados com a hidratação1, 3. Além disso, o processo de desidratação pode ser mais rápido em dias com temperatura muito elevada ou muito baixa (quando o ar também pode ficar mais seco), podendo em alguns casos levar a pessoa ao óbito caso não tenha cuidado para manter-se hidratada4.
Porém nem tudo é um paraíso na água. Quando uma pessoa consome água constantemente, de modo mais rápido do que os rins podem excretá-la (a taxa máxima do fluxo de urina é cerca de 15 ml/min) ou quando sua função renal é deficiente, a diminuição da concentração de Na+ (íons sódio) do líquido intersticial (líquido localizado entre as células) faz a água passar, por osmose, desse líquido para o fluído intracelular1. Fato que pode resultar na intoxicação por água, um estado em que a água corporal excessiva leva as células a incharem perigosamente, produzindo convulsões, coma e, eventualmente, morte. Por isso que para evitar essa terrível sequência de eventos a terapia de reidratação oral ou endovenosa inclui uma pequena quantidade de sal1, 5.
Com estas informações percebemos que na ausência de problemas de saúde o próprio organismo trata de regularizar sua hidratação e que muitas vezes, dadas as circunstâncias, o excesso de água pode ser tão prejudicial quanto sua falta, ao contrário do que muitas dietas podem pregar, alegando que água é fonte de apenas benefícios e esquecendo-se de que muitas vezes o que diferencia o remédio do veneno é a dose.


Referências:
1 - Tortora, G.J.; Gabrowski, S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. Porto Alegre: Artmed. 718p.
2 – Cheuvront, S.N.; Kenefick, R.W. 2014. Dehydration: physiology, assessment, and performance effects. Comprehensive Physiology 4: 257-285.
3 - Thomas, D.R.; Cote, T.R.; Lawhorne, L.; Levenson, S.A.; Rubestein, L.Z.; Smith, D.A.; Stefanacci, R.G.; Tangalos, E.G.; Morley, J.E. 2008. Understanding clinical dehydration and its treatment. The Journal of Post-Acute and Long-Term Care Medicine 9(5): 292-301.
4 - Lim, Y.H.; Park, M.S.; Kim, Y.; Kim, H.; Hong, Y.C. 2014. Effects of cold and hot temperature on dehydration: a mechanism of cardiovascular burden. International Journal of Biometeorology 59(8): 1035-1043.
5 – Évora, P.R.B.; Reis, C.L.; Ferez, M.A.; Conte, D.A.; Garcia, L.V. 1999. Distúrbios do equilíbrio hidroeletrolitico e do equilíbrio acidobásico – uma revisão prática. Medicina 32: 451-469.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Equívocos da medicina alternativa, complementar e nutrição – parte I

Autor: Mario Arthur Favretto


Um dos problemas mais comuns em relação às ditas medicinas alternativas e/ou complementares, aos naturólogos e também aos nutricionistas é a aparente falta de conhecimento por parte de alguns (não vou generalizar) destes profissionais sobre o método científico e sobre cuidados para realização de um bom experimento que possua boas bases estatísticas. E sobre como estas características influenciam em suas respectivas afirmações relacionadas à saúde das pessoas. É comum observarmos as pessoas fazendo associações de falsa correlação e também de correlações espúrias para justificar que um determinado alimento ou produto faz mal e outro faz bem. Não que esse problema também não ocorra em outras formações, como muitos de meus colegas de formação (biólogos), por exemplo.
É bem comum encontrarmos a afirmação de que refrigerantes de cola (e.g. coca-cola, pepsi, etc) vão corroer os ossos da pessoa, e como base para isso usam o exemplo de deixar um osso de galinha dentro de um copo com estes produtos, e após um tempo, este estaria parcialmente deteriorado ou emborrachado. A coca-cola tem um pH de em média 1,78, podendo chegar 3 (Skupien et al,, 2009), enquanto o pH médio do estômago é em média 2 (Tortora & Gabrowski, 2006), afinal, temos ácido clorídrico no estômago. Ou seja, o maior risco poderia ser em efeitos destes refrigerantes sobre os dentes e não sobre os demais ossos do corpo, tendo em vista que estas bebidas não vão entrar em contato com eles e há ácido de igual potência e em alguns casos mais forte no estômago. Salvo algum efeito prejudicial de outras substâncias presentes nestas bebidas, mas no assunto em questão, a afirmação aparenta ser um tanto quanto exagerada.
Essa afirmativa seria o mesmo que dizer que como o oxigênio provoca oxidação (ferrugem) de barras de ferro, não deveríamos deixá-lo entrar em contato com o nosso corpo. Afinal, se enferruja algo forte como o ferro, o que o oxigênio poderia fazer com nossos pulmões? Ou seja, só porque algo é prejudicial em certos aspectos ou para certos materiais, não significa que também o será para nosso organismo. Devemos analisar o contexto de real aplicação à nossa saúde, ninguém vai deixar de respirar só porque oxigênio participa do processo de “enferrujar” ferro.

Figura 1. “Isto é ferrugem. Ela é causada pelo oxigênio e se chama oxidação. Nós respiramos oxigênio todos os dias. Se ele pode fazer isso com uma corrente, então imagine o que ele pode fazer para os seus pulmões. Compartilhe para aumentarmos a consciência sobre os perigos do oxigênio.”

De mesma forma que nem tudo que parece ser ruim em um alimento vai nos prejudicar, nem tudo que ele tem de bom vai nos beneficiar. Exemplificando, em relação ao uso de suplementos vitamínicos e minerais, nosso organismo não possui um mecanismo para armazenar muitas dessas substâncias e, algumas das que são absorvidas, quando em excesso, também podem fazer mal. Aprofundando esse exemplo, sobre o consumo de cálcio como suplemento alimentar para reduzir os efeitos da osteoporose, será que realmente funciona? O armazenamento do cálcio ou não nos ossos e seu uso em outras atividades do corpo é controlado por hormônios, como hormônio paratireoideo, calcitonina e calcitriol (vitamina D; Tortora & Gabrowski, 2006).
Estes hormônios em conjunto vão definir quanto de cálcio dos ossos será liberado na corrente sanguínea para atividades do corpo, quanto será reabsorvido para os ossos e quanto será absorvido nos intestinos a partir dos alimentos (Tortora & Gabrowski, 2006). Assim, se não houver um controle hormonal, não haverá a absorção e deposição do cálcio nos ossos, tornando o consumo excessivo de cálcio ineficiente. Isto também é o que apontam revisões sistemáticas e meta-análises que indicam certa controvérsia sobre a real eficiência no consumo de cálcio, e que aparentemente seu consumo pode resultar em mais efeitos benéficos quando em conjunto com suplemento de vitamina D (Borrelli & Ernst, 2010). Ou este tratamento combinado com exercícios físicos, que podem colocar os ossos em uma situação de estresse, responsável por aumentar a deposição de cálcio em suas estruturas (Tortora & Gabrowski, 2006; Borrelli & Ernst, 2010).
Além disso, essas questões também levantam dúvidas. Considerando que se muitos problemas de pedras nos rins resultam no acúmulo de sais minerais, tal formação poderia resultar deste consumo excessivo de cálcio? Bem, em excesso, a suplementação de cálcio e vitamina D pode realmente pode resultar na formação deste problema (Gallagher et al., 2014; Letavernier et al., 2016). Ou seja, ao invés de melhorar uma situação, o uso descontrolado de produtos complementares pode piorar a saúde das pessoas.
Desta forma, é possível perceber que, apesar do que é pregado por certos profissionais da saúde de que para tudo existe uma definição rígida daquilo que é saudável ou prejudicial, o limiar entre estas duas situações parece ser muito mais tênue. Um refrigerante que é visto como um vilão, em pouca quantidade pode ser inofensivo. Enquanto que a ingestão de suplementos de sais minerais e vitaminas, vistos como produtos altamente benéficos, podem resultar em problemas de saúde. Nestas situações, talvez a melhor solução seja uma variação de uma frase atribuída à Paracelso que diz: “todas as substâncias são venenos; não existe uma que não seja veneno. A dose certa diferencia um veneno de um remédio”. Mas, é claro, tal dose depende de que tipo de produto se está falando.

Referências:
Borrelli, F.; Ernst, E. 2010. Alternative and complementary therapies for the menopause. Maturitas 66: 333-343.
Gallagher, J.C.; Smith, L.M.; Yalamanchili, V. 2014. Incidence of hypercalciuria and hypercalcemia during vitamin D and calcium supplementation in older women. Menopause 21(11): 1173-1180.
Letavernier, E.; Verrier, C.; Goussard, F.; Perez, J.; Huguet, L.; Hayman, J.P.; Baud, L.; Bazin, D.; Daudon, M. 2016. Calcium and vitamin D have a synergistic role in a rat model of kidney stone disease. Kidney International 90(4): 809-817.
Skupien, J.A.; Bergoli, C.D.; Pozzobon, R.T.; Brandão, L. 2009. Avaliação do pH de refrigerantes do tipo normal e light. Saúde 35(2): 33-36.
Tortora, G.J.; Gabrowski, S.R. 2006. Corpo humano: fundamentos de anatomia e fisiologia. Porto Alegre: Artmed. 718p.