domingo, 28 de junho de 2015

Preconceito e igualdade


Autora: Monica Piovesan

De acordo com o dicionário, preconceito é definido como opinião ou conceito formado antes de obter o conhecimento adequado acerca de determinado assunto. Pode ser definido também como opinião ou sentimento desfavorável, concebido independente da experiência ou da razão. Ainda, em sociologia, é a "atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos". É nessa última definição que esse texto estará focado. Nesse sentido, observa-se que nenhum tipo de preconceito é mais importante que outro e todos eles envolvem algo em comum, o sofrimento das pessoas ou geralmente, de pequenos grupos de pessoas.
Geralmente quando um desses grupos minoritários alcança algum direito, garantido por lei, existe a reação de pessoas preconceituosas com várias justificativas para invalidar essa conquista. Recentemente nos EUA o casamento gay foi aprovado, certamente um enorme passo em direção à tolerância e a igualdade. Esse deveria ser motivo de comemoração, afinal, por que devo me intrometer na felicidade dos outros, sendo que independente da forma de AMOR, não está fazendo mal nenhum para outros seres vivos?
Justificativas contrárias a essa questão foram desde religiosas até apelo à fome de pessoas ou outros animais, abandonados nas ruas ou em países pobres. Quanto às justificativas religiosas, vale ressaltar que muitas coisas escritas nos livros considerados sagrados estão ultrapassadas e são totalmente desumanas. A título de exemplo, se considerar a união de duas pessoas do mesmo sexo errada perante os olhos de deus, poderíamos considerar a escravidão como algo bom, pois ambos os assuntos possuem respaldo na Bíblia. Respectivamente Levítico 18:22 “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é.”e Levítico 25:46 “Deixá-los-eis por herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam plenamente como escravos perpétuos. Mas, quanto a vossos irmãos, os israelitas, não dominareis com rigor uns sobre os outros”.
Com relação à questão da fome, sabe-se que é de extrema importância, porém esta não depende apenas da empatia para resolução. Envolve um sistema econômico baseado na má distribuição de renda e desigualdade social, onde empresas e governos detêm riquezas que não são distribuídas igualmente entre os países.
Ao longo do texto a palavra empatia aparece, mas o que ela significa? Empatia nada mais é do que a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir e pensar da mesma forma como ela agiria nas mesmas circunstâncias. Então, não é preciso ser negro para lutar contra o racismo, não é preciso ser mulher para defender igualdade de direito e deveres entre os gêneros, não é preciso acreditar ou desacreditar em uma (ou várias divindades) para defender um estado laico, não é preciso ser índio para perceber como as terras histórica e tradicionalmente ocupadas por estes povos estão sendo degradadas. Finalmente, não é preciso ser gay para aceitar qualquer forma de amor. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Déjà vu, neurologia e a falácia do sobrenatural

Autor: Mario Arthur Favretto


A grande maioria das pessoas já experimentou em alguma parte da sua vida uma sensação de que algo que ocorreu em um certo momento já havia acontecido antes ou de que ela já tinha visto aquilo antes em outra ocasião e o momento seria apenas uma mera repetição. Comumente esta sensação é denominada de “déjà vu” do francês, e significa “já visto” ou “já foi visto”. Porém a maioria das pessoas, por falta de um aprofundamento no conhecimento científico e, às vezes, por não saber onde encontrar informações confiáveis sobre o assunto, prefere aceitar a ideia de que isto seria alguma forma de ocorrência sobrenatural.
Como sempre as pessoas parecem querer encontrar o máximo possível de confirmações para suas crenças e anseios pela existência do sobrenatural, muito provavelmente derivado do medo da morte e de uma negação de que a vida possui um fim. Portanto, o déjà vu acaba por também ser usado para estas confirmações, com alguns grupos religiosos-místicos e alguns pseudocientíficos afirmando que a sensação de déjà vu é realmente algo que já ocorreu, mas em vidas passadas ou que são poderes de telepatia. Assim, para estes grupos, tal fenômeno neurológico seria uma confirmação de seus anseios pelo sobrenatural.
Porém, a ciência é mais bela do que o sobrenatural, que longe de ser uma resposta é apenas um consolo. Dizer que isto é fruto de vidas passadas e do sobrenatural traz mais perguntas do que respostas: existe uma alma? Se nossas memórias são armazenadas de forma bioquímica no cérebro, como podem interagir com algo imaterial e depois que a pessoa se decompôs em uma vida passada, voltar a agir novamente com a matéria de seu corpo atual? (Não vale dizer que é energia, pois energia é algo físico, não imaterial, é troca de elétrons e modificações de substâncias materiais). Onde estavam essas memórias, suspensas no ar? Se as memórias de vidas passadas ficam suspensas em um mundo paralelo para depois voltarem em outras vidas, por que uma pessoa com Alzheimer perde-as completamente? Oras, porque memórias são coisas físicas armazenadas bioquimicamente no cérebro e não coisas sobrenaturais.
Nossos humildes cérebros de símios foram moldados ao longo da evolução e como esta não produz a completa perfeição, nossos cérebros possuem falhas. O que ocorre nos momentos de déjà vu é que, provavelmente, o cérebro acessa as memórias imediatamente após “arquivá-las”, uma falha de comunicação, criando a sensação de que o fato que está ocorrendo é uma repetição. Estas ocorrências também podem ser induzidas no cérebro por estimulação com eletrodos no hipocampo e na amígdala cerebral, além de serem mais comuns em pessoas com certos tipos de epilepsia no lobo temporal do cérebro ou certos tipos de desordens psiquiátricas (Bartolomei et al., 2004; Wild, 2005).
Considerando, por exemplo, o hipocampo, ao longo do desenvolvimento do ser humano até atingir a maturidade ele é muito sensível a efeitos ambientais (ansiedade, estresse) e influências fisiológicas, sofrendo danos com efeitos de convulsões e inflamações ou de estresse psicossocial e privação de sono durante o desenvolvimento infantil. Assim, como esta região cerebral tem um papel fundamental na aquisição de memórias, situações como estas que afetam seu funcionamento ou desenvolvimento podem resultar em falhas na comunicação dos neurônios, ocasionando a sensação de déjà vu (Wild, 2005; Brázbil et al., 2012). Tanto que algumas pessoas podem apresentar disfunções neste funcionamento neuronal e passar de meses a anos tendo sensações constantes de déjà vu (Akgül et al., 2013; ver site nas referências).
O déjà vu não é um fenômeno sobrenatural, é um fenômeno físico, ocorre na comunicação entre neurônios. Indo mais além, podemos considerar que a crença da origem sobrenatural deste fenômeno, longe de ser benéfica e consoladora, pode ocultar problemas e doenças neurológicas ou outros fatores relacionados à vida cotidiana da pessoa que podem estar implicando na ocorrência deste problema. Eventos isolados de déjà vu podem ser uma simples disfunção corriqueira no funcionamento do cérebro, compatível com uma neuropsiquiatria normal, mas sua constância elevada pode implicar em causas mais sérias que necessitam de tratamento e auxílio médico (Wild, 2005). Fato que não poderia ser constatado se nós permanecêssemos na crença sobrenatural.

Referências
Akgül, S.; Öksüz-Kanbur, N.; Turanlı, Güzide. 2013. Persistent déjà vu associated with temporal lobe epilepsy in an adolescent. The Turkish Journal of Pediatrics 55: 552-554.
Bartolomei, F.; Barbeau, E.; Gavaret, M.; Guye, M.; McGonigal, A.; Régis, J.; Chauvel, P. 2004. Cortical stimulation study of the role of rhinal cortex in déjà vu and reminiscence of memories. Neurology 63: 858-864.
Brázdil, M.; Marecek, R.; Urbánek, T.; Kaspárek, T.; Mikl, M.; Rektor, I.; Zeman, A. 2012. Unveiling the mystery of déjà vu: the structural anamoty of déjà vu. Cortex 48(9): 1240-1243.
Wild, E. 2005. Déjà vu in neurology. Journal of Neurology 252: 1-7.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A farsa dos sucos Detox e os riscos da fitoterapia


Autor: Mario Arthur Favretto


Recentemente ganhou popularidade em diferentes mídias os chamados sucos “detox” que supostamente podem eliminar as toxinas de seu corpo, por serem compostos de diferentes partes de vegetais (frutos, folhas, raízes, etc). Há mais tempo temos a constante presença da utilização de produtos fitoterápicos, extratos alcoólicos de plantas ou chás. Ambos partindo do princípio de que tudo que é natural, ou seja, se não foi manipulado pelo homem, é saudável. Apenas por este aspecto as ideias já parecem ser deturpadas, pois só pelo fato de um produto ser natural, isto não significa que ele seja saudável. A natureza possui muitas guerras, e muitas delas são guerras químicas, ou você se arriscaria a comer qualquer cogumelo que aparecesse em sua frente apenas por ser algo natural? Ou se deixar ser picado por uma serpente, por ela ser natural?
Caso você não saiba, nosso organismo possui órgãos moldados ao longo da evolução para realizar a função de desintoxicar o organismo. Isso mesmo! O fígado e os rins. O primeiro destrói diversas substâncias presentes no sangue, metabolizando-as em substâncias mais simples ou eliminando-as, como o álcool originário de bebidas. Enquanto os rins filtram o sangue, eliminando diversas substâncias tóxicas originadas pelo metabolismo, como, por exemplo, a ureia. Desta forma, se a pessoa já absorveu na digestão substâncias tóxicas, terá que contar quase exclusivamente com o funcionamento de seus órgãos para eliminá-las.
Um suco de vegetais não poderá ajudá-la. Em casos de intoxicações graves por ingestão de certas substâncias, se não se passaram muitas horas, pode ser utilizado o carvão ativado, que possui alta porosidade, e assim, pode adsorver as substâncias tóxicas quando elas ainda estão no sistema digestório, reduzindo a quantidade que será absorvida pelo organismo. E por que os sucos não servem para desintoxicação?
Plantas são seres vivos que não têm como se deslocar, como fugir ou lutar contra seus predadores, assim para se manter vivas muitas espécies foram selecionadas ao longo da evolução de forma a produzir metabólitos secundários, substâncias que não estão diretamente ligadas ao crescimento e reprodução das plantas. Mas que podem apresentar toxicidade e assim prejudicar animais herbívoros que tentem se alimentar delas. Por exemplo, qual o benefício de uma planta, como a couve ou a alface (ambas usadas em sucos detox) em se deixar ser devorada por herbívoros? Ainda mais deixar suas folhas, das quais elas dependem para realizar a fotossíntese, serem prejudicadas por um animal tentando se aproveitar dela. Como solução, variedades destas plantas que possuem maior quantidade de toxinas conseguem ter maior sucesso reprodutivo e, em consequência, aumentar os genes da produção de toxinas nas populações da espécie.
Ao longo de milhares de anos os seres humanos vêm realizando seleção artificial de forma a obter variedades vegetais mais palatáveis, porém ainda hoje temos plantas que ainda possuem toxinas contra herbivoria. Muitas delas são vegetais com gostos amargos, como agrião e rúcula. E até mesmo essa percepção de gosto amargo pode variar conforme a pessoa, se crescemos ingerindo estes vegetais com toxinas, nosso fígado pode acostumar-se a eliminar estas substâncias de nosso organismo. Enquanto para outras pessoas não. É provavelmente por este motivo que o brócolis pode parecer mais ou menos amargo dependendo da pessoa e da capacidade de desintoxicação de seu fígado (Nesse & Williams, 1997)! No caso deste vegetal, a presença de polifenois e taninos podem prejudicar as mucosas intestinais e também reduzir a absorção de certos nutrientes (Santos, 2006). Ou seja, os vegetais não realizam a desintoxicação, nossos órgãos sim.
Devemos ressaltar também que a ingestão de toxinas vegetais ocorre não apenas na alimentação, mas também por meio de remédios fitoterápicos, pois estes também lidam com os metabólitos secundários de plantas, sem, no entanto, isolá-los. Ou seja, assim como você poderá ingerir uma substância com potencial terapêutico, estará ingerindo uma dezena de outras que podem prejudicar ainda mais o seu organismo. Por exemplo, o uso de chás de flores ou folhas Passiflora (maracujás) para fins sedativos e calmantes resulta na ingestão de diversos alcaloides e flavonoides, e até de cianeto, dependendo a espécie deste gênero, resultando em efeitos adversos cardiovasculares e gastrointestinais. Outra planta, Plantago ovata é indicada para prisão de ventre, emagrecimento e diabetes, porém seu uso está associado com o risco de causar obstrução esofágica. O famoso chá de ginseng Panax ginseng pode ocasionar sangramento vaginal, alteração do estado mental, hipertensão, insônia e diarreias (Turolla & Nascimento, 2006; Carvalho et al., 2011).
No caso da ingestão de vegetais para alimentação, muitas toxinas podem ser eliminadas pelo cozimento, que ocasiona desnaturação destas substâncias e a quantidade de diversas toxinas também foi reduzida por meio de seleção artificial, porém muitas outras ainda assim permanecem. Já no caso da fitoterapia, a ingestão de chás e remédios que não passaram por teste de toxicidade implica na ingestão de uma bateria de toxinas que nem mesmo imaginamos os males que podem ocasionar. Desta forma, demonstra-se que sucos ditos “detox” não realizam nenhuma função de desintoxicação, pois os vegetais naturalmente possuem substâncias para defesa contra herbivoria e que podem nos prejudicar. Se quisermos um melhor funcionamento de nosso organismo, o melhor é evitar outras substâncias ainda mais tóxicas como excesso de bebidas alcoólicas, que podem resultar na inutilização de diversas células do fígado. E assim, dificultar seu funcionamento nos processos de desintoxicação por parte de substâncias ingeridas em alimentos essenciais como os próprios vegetais que apesar de trazerem benefícios também trazem um preço a se pagar pela sua ingestão.

Referências
Carvalho, F.K.L.; Medeiros, R.M.T.; Araújo, J.A.S.; Riet-Correa, F. 2011. Intoxicação experimental por Passiflora foetidae (Passifloraceae) em caprinos. Pesquisa Veterinária Brasileira 31(6): 477-481.
Nesse, R.M.; Williams, G.C. 1997. Por que adoecemos: a nova ciência da medicina darwinista. Campus/Elsevier. 287p.
Santos, M.A.T. 2006. Efeito do cozimento sobre alguns fatores antinutricionais em folhas de brócolis, couve-flor e couve. Ciência e Tecnologia de Alimentos 30(2): 294-301.
Turolla, M.S.R.; Nascimento, E.S. 2006. Informações toxicológicas de alguns fitoterápicos utilizados no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas 42(2): 289-306.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ciência, pensamento crítico e crenças

Autor: Mario Arthur Favretto


É comum ocorrer críticas a certos aspectos da Ciência, em especial seu ceticismo diante de certos eventos sobrenaturais e extraordinários citando certos pesquisadores de renome, possuidores de títulos de doutores e de grande quantidade de publicações em certas áreas do conhecimento, que acreditam nestes supostos eventos como verdades. Como se o fato de uma pessoa ter renome ou possuir e compartilhar de certas crenças com outras pessoas, tornassem estas verdadeiras.
Neste quesito esbarra-se no que é chamado de falácia da autoridade, abordada por Carl Sagan em seu livro O Mundo Assombrado pelos Demônios. Essa falácia (um raciocínio errado com aparência de verdadeiro) utiliza-se de apelos para autoridades em certas áreas, como por exemplo, se Einstein, que foi um grande físico, acreditava em evento A, logo esse evento deve ser verdadeiro. Porém, ao fazerem tais afirmações, especialmente relacionadas a coisas sobrenaturais e pseudocientíficas (e.g. homeopatia, heiki, chakras e afins), as pessoas não compreendem que o fato de alguém acreditar ou não em algo, ou de muitas pessoas, acreditarem ou não em algo, não torna isto verdadeiro.
Independente de a pessoa ter obtido ou não conhecimento em mais de uma área do saber, nossos cérebros ainda são sujeitos a falhas, por isso a Ciência utiliza-se de ferramentas como a experimentação, a comparação, a análise e descrição, e também da estatística, para tentar chegar o mais próximo possível de explicações da realidade. Pois se permanecêssemos apenas nos vislumbres imaginários, teríamos uma ampla gama de diferentes opiniões, todas podendo ser falhas devido a ilusões que o cérebro pode sofrer na tentativa de entender a realidade apenas numa visão pessoal e interna.
Por exemplo, uma maior quantidade de dopamina em certas regiões específicas do cérebro pode levar as pessoas a perceberem padrões que não existem no mundo, culminando em níveis extremos em casos de esquizofrenia quando há uma completa ruptura da realidade e a pessoa enxerga padrões completamente inexistentes. Em outros casos, níveis atenuados de dopamina podem influenciar as crenças das pessoas no sobrenatural e assim torná-las mais religiosas, enquanto uma redução deste neurotransmissor pode tornar a pessoa cética em relação ao sobrenatural e a divindades, não vendo mais os padrões inexistentes, ou seja, os agentes externos ao mundo visível. Assim, medicamentos e diferentes situações de vida (e.g. estresse), podem influenciar na quantidade de neurotransmissores em nosso cérebro e alterar nossa predisposição a certas crenças.
Dessa mesma forma estão predispostas autoridades, líderes religiosos e científicos, eles também são humanos, também possuem cérebros com a mesma fisiologia e assim estão sujeitos às mesmas falhas. Estas só podem ser evitadas por meio do cultivo do pensamento crítico, quando analisamos de forma efetiva as evidências que indicam um determinado fato, independente de terem sido proclamadas por uma autoridade ou de ser simplesmente propagada por senso comum. O pensamento crítico é um cultivo de um ceticismo sadio, onde nos tornamos detetives tentando entender o mundo por meio de toda uma cacofonia de crenças e superstições, ordens de autoridades e senso comum, que inundam nossas mentes com informações contraditórias, fazendo que precisemos separar o joio do trigo.
E isto só pode ser realizado quando tentamos apaziguar nossos desejos de sobrenatural ou certas crenças, e passamos a buscar entender realmente a realidade, sem querer ver fadas por todos os lados. As pessoas difundem suas crenças na expectativa de que quanto mais pessoas acreditem maiores serão as chances de que ela seja verdadeira e se deleitam quando uma suposta autoridade aceita essas mesmas crenças e exerce sua influência sobre os demais. Porém, tais desejos e autoridades não podem alterar a realidade, ela continuará a ser o que é, e nossa melhor forma de tentar entendê-la é pela Ciência e com o arsenal proposto por sua metodologia, doses de ceticismo, pensamento crítico, experimentação, análise, descrição, comparação de dados e observações, e estatística.

Referências:
Brancão, M.L. 2004. As bases biológicas do comportamento: introdução à neurociência. Ed. Gráfica Pedagógica Universitária. 244p.
Krummenacher, P., Mohr, C., Hacker, H., Brugger, P. 2009. Dopamine, paranormal belief, and the detection of meaningful stimuli. Journal of Cognitive Neuroscience 22(8): 1670-1681.
Shermer, M. 2012. Cérebro e Crença. JSN Editora. 391p.
Sagan, C. 2006. O mundo assombrado pelos demônios. Ed. Companhia de Bolso. 512p.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Um diálogo sobre Ciência e Religião

Autor: Mario Arthur Favretto

Este texto tem em sua função analisar o aspecto negativo que por vezes a utilização da Ciência para combater a Religião pode ter, onde ao invés de uma aproximação do conhecimento cientifico acaba-se por afastar as pessoas do mesmo. Isto gera situações em que se espalham ainda mais pseudociências e crendices prejudiciais tanto para a Ciência quanto para as Religiões mais tolerantes em relação a conhecimentos divergentes de suas bases dogmáticas.
A utilização da Ciência para a comprovação da não existência de divindades criadas pelos humanos, principalmente por ateus militantes, acaba gerando uma imagem popular distorcida da Ciência, onde esta passa a ser vista como uma inimiga de qualquer manifestação religiosa. Fato que não possui uma completa veracidade, talvez o aspecto mais conflituoso seja que a Ciência implica que certos aspectos dos livros supostamente sagrados estejam errados, mas não na inexistência de uma divindade em si. Considerando esta numa visão panteísta ou deísta, e não em uma divindade que interfere no mundo em resposta a pedidos, desejos e orações humanas.
Vamos pegar como exemplo inicial a teoria do Big Bang, atualmente tão combatida por religiosos, tal teoria implica na origem do Universo a partir do nada. É um fato curioso essa briga atual, pois inicialmente quem não gostou desta teoria foram os físicos e astrônomos. A teoria do Big Bang, também chamada inicialmente de hipótese do átomo primordial, foi desenvolvida pelo padre católico, astrônomo e físico Georges Lemaître, e por que os demais pesquisadores não apreciaram essa hipótese? Oras, pois se o Universo teve um momento inicial de surgimento, ele pode ter surgido do nada como pode ter surgido de uma divindade, por isso os demais pesquisadores preferiam as hipóteses que implicavam que o Universo era eterno, sem um começo e sem um fim.
Mas vejam que mesmo com essa resistência inicial, com o aumento de acúmulo de dados e pesquisas, a teoria do Big Bang acabou tendo uma melhor fundamentação e como os dados analisados demonstraram a veracidade desta ocorrência, a Ciência passou a aceitar este corpo teórico. Porém, os motivos que levam atualmente os religiosos a desgostarem dessa teoria, são incompreensíveis, pois muitos livros supostamente sagrados mencionam um momento de criação do Universo. Havendo, é claro, apenas divergências em relação ao tempo transcorrido entre o surgimento do Universo e vida.
Por que a Ciência então mesmo tendo aceitado uma criação para o Universo não aceitou plenamente junto com este fato a existência de uma divindade? Porque isto não foi demonstrado pelos dados obtidos, sabe-se que houve um momento de criação, mas não se sabe o que havia antes dele. E também pelo fato de que, é melhor manter a dúvida do que fazer afirmações errôneas sobre certos aspectos do Universo que ainda não podemos obter dados. E por quê? Porque se respondermos que o Universo veio de uma divindade, isso implicará no surgimento de mais perguntas, do que de respostas. Se uma divindade criou tudo, de onde surgiu essa divindade? Quem foi que criou a divindade? Se a divindade veio do nada, porque o Universo não pode vir do nada? Se a divindade pode ser eterna, por que o Universo ou o Multiverso não podem? Mantém-se então a incerteza.
Nosso segundo exemplo será a Evolução. Neste fato, temos também o mesmo problema anterior, a Evolução não implica na inexistência de uma divindade criadora, mas sim na questão de os livros supostamente sagrados estarem errados. Vamos por alguns momentos imaginar o seguinte, um divindade gera o universo num experimento próprio para ver qual a probabilidade de que um planeta entre milhares ou milhões poderá gerar vida, não é uma possibilidade? Ou vejamos da seguinte forma, a divindade acompanhou o desenvolvimento do Universo e interferiu para o surgimento da vida em algum lugar específico, porém vendo que este planeta é instável, dinâmico, com constantes mudanças, por que criaria espécies prontas e fixas? Para ter que ficar o tempo todo interferindo no andamento da vida? Não seria mais sensato criar espécies que sofram variações a cada geração e que assim poderiam estar em constante modificação e adaptação diante das alterações que ocorrem neste planeta? Assim elimina-se a necessidade da própria divindade ter que interferir a todo o momento em sua criação, pois ela mesma há de modificar-se ao longo do tempo e tornar-se adaptada diante das novas condições ambientes que surgem.

Assim percebemos, mesmo que rápida e superficialmente, que as duas áreas mais conflitantes entre Ciência e Religião não são mutuamente excludentes. É possível a existência de uma quimera entre ambos, não sei ao certo ainda se positiva ou negativa. Porém há esperança para a conciliação entre estas duas áreas, mantendo o pleno conhecimento científico, sem excluir uma ideia de possibilidade de divindade. O que realmente a Ciência implica é em tornar errônea uma interpretação literal dos mitos de criações religiosos, e possivelmente também, na impossibilidade de existência de uma divindade que interage com sua criação diante de qualquer aflição humana. Focando-se então numa visão panteísta/deísta, com ausência de certas manifestações sobrenaturais e pseudocientíficas propagadas por diversas mídias atualmente.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Um planeta instável


Autor: Mario Arthur Favretto

A superfície do planeta Terra não é estável e sempre ocorrem mudanças. Todos os anos é possível observar notícias sobre terremotos, maremotos e vulcões que entram em erupção. Há também eventos atmosféricos que provocam alterações na superfície, como furacões e enchentes. Estes eventos são um reflexo e um lembrete constante de que nosso planeta não é estável; a natureza é o oposto, extremamente dinâmica. Algumas dessas mudanças influenciam continentes inteiros, como é o caso da deriva continental. 
Questionamentos acerca da estabilidade e imutabilidade dos continentes foram feitos ao longo dos séculos por diversos geógrafos que notaram que as costas de diversos continentes poderiam encaixar-se umas nas outras, conforme se pode notar em um mapa. Porém, quem primeiro realizou estudos aprofundados para demonstrar estes fatos foi Alfred Wegener, com sua obra publicada em 1912, A Origem dos Continentes e Oceanos, que demonstrou que os continentes deveriam ser separados em placas tectônicas. Apesar disso, ele não demonstrou o que exatamente impulsionava a movimentação dos continentes (Bryson, 2005).

Alfred Wegener. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1944, o geólogo Arthur Holmes com a obra Principles of physical geology, demonstrou que o aquecimento radioativo gerado pelo núcleo da Terra, poderia gerar correntes de convecção nas camadas do manto (uma camada de estrutura da Terra localizada abaixo da superfície/crosta terrestre), assim influenciando a crosta terrestre e fazendo-a se mover (Bryson, 2005). Com toda essa movimentação a crosta terrestre acabou ficando dividida em diferentes partes, denominadas placas tectônicas. Com essa repartição nos pontos de encontro dessas placas pode ocorrer intensa atividade sísmica e vulcânica, devido à sua fragilidade.
Desta forma, no encontro de algumas placas, pode ocorrer, por pressão interna das correntes de convecção, um constante derramamento de magma, que ao se solidificar, auxilia a criar mais pressão que acaba por empurrar as placas tectônicas, fazendo-as se afastarem. Em outros pontos, uma placa tectônica pode estar sendo empurrada para cima de outra, com a de baixo sendo direcionada de volta para o manto. Esses movimentos podem ser lentos e constantes ou a pressão pode se acumular provocando um grande deslocamento da placa tectônica, semelhante ao observado no Japão com o maremoto de 2011, onde a principal ilha do país foi deslocada em 2,4 m para o leste e o eixo da Terra foi alterado em 10 cm (Shrivastava 2011). O maremoto e sismo que ocorreram no Oceano Índico em 2004, causaram uma movimentação na placa tectônica da Índia de até 20 m em alguns pontos, além de ter alterado a posição do Polo Norte em 2,5 cm e também a rotação da Terra (Walton 2005).
A placa que é empurrada para cima, com o acúmulo dessas alterações, pode acabar gerando grandes cadeias de montanhas, com eventuais deslocamentos que podem chegar a alguns metros durante eventos sísmicos, como Charles Darwin observou em sua viagem a bordo do Beagle quando visitava o Chile em 1835. Na ocasião ocorreu um grande terremoto, seguido de um maremoto, e que ocasionou a elevação de alguns pontos da costa. E na ilha de Santa Maria, localizado ao sul de Concepción (no Chile), conforme medições realizadas pelo capitão do Beagle, FitzRoy, a elevação da superfície chegou a 3 m (Keynes 2004, Darwin 2008, Darwin 2009).
Graças a essas alterações graduais que fósseis de moluscos marinhos podem ser encontrados no alto de montanhas, e conforme Darwin observou, em alguns locais os fósseis indicam que a crosta estava acima do nível do mar, tendo sido posteriormente submersa e novamente soerguida, havendo fósseis de moluscos marinhos e de árvores intercalados em diferentes camadas das rochas (Keynes 2004, Darwin 2008, Darwin 2009).
Outra implicação que demonstra a movimentação das placas tectônicas é que se os continentes permanecessem parados, todos os milhões de toneladas de matéria erodidas pelos rios e levadas aos oceanos anualmente (por exemplo, as 500 milhões de toneladas de cálcio), multiplicando-se por todos os milhões de anos que isto ocorre, deveria haver 20 km de sedimentos no fundo dos oceanos, fato que não ocorre (Bryson 2005). 
A questão é que os continentes se deslocam como uma esteira rolante, mas em geral lentamente. Em alguns casos, a partir do encontro de duas placas tectônicas, como ocorre no fundo do Oceano Atlântico em que se encontra uma cordilheira submersa, de norte a sul, eventualmente os picos desta cordilheira emergem, caso dos Açores e ilhas Canárias. No meio desta cadeia de montanhas localizada submersa no Oceano Atlântico há uma fenda, com até 20 km de largura e extensão de 19.000 km. Em algumas partes desta fenda o magma emerge e vai pressionando as camadas já solidificadas para as laterais e como indicam as datações realizadas, quanto mais próximas da fenda, mais recente é a rocha que emergiu do manto, e quanto mais distante, mais antiga (Bryson, 2005).
Multiplique-se estas alterações por milhões de anos, e o que temos são mudanças constantes na superfície terrestre, modificando os ambientes. Assim, para que as espécies sobrevivam, também precisam se modificar. Como muitas vezes a fauna e a flora são deslocadas junto com os continentes em suas movimentações ao longo de diferentes climas, acaba-se por criar um sistema natural de seleção. Aqueles indivíduos que possuem alguma característica que os torne mais aptos a sobreviverem e se reproduzirem diante das alterações ambientais, são os que passarão seu material genético adiante, mantendo sua “linhagem”, apesar das alterações que elas sofreram por influências genéticas e ambientais.

Referências:
Bryson, B. (2005) Breve história de quase tudo. São Paulo: Companhia das Letras.
Darwin, C. (2008) Viagem de um naturalista ao redor do mundo, v. 1. Porto Alegre: L&PM.
Darwin, C. (2009) Viagem de um naturalista ao redor do mundo, v. 2. Porto Alegre: L&PM.
Keynes, R.D. (2004) Aventuras e descobertas de Darwin a bordo do Beagle, 1832-1836. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Shrivastava, S. (2011) Earthquake shifts Japan islands and Earth axis. World Reporter. Disponível em: <http://www.theworldreporter.com/2011/03/earthquake-shifts-japan-islands-and.html> Acesso em: 17 de março de 2013.
Walton, M. (2005). Scientists: Sumatra quake longest ever recorded. CNN. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2005/TECH/science/05/19/sumatra.quake/index.html> Acesso em: 17 de março de 2013.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Os insetos e (um pouco sobre) sua importância na área forense


Autora: Emili Bortolon dos Santos


Os insetos formam o grupo mais diverso de animais em nosso planeta. Existem cerca de um milhão de espécies já descritas e em cada ordem em particular, há a estimativa de que muitos mais desses seres ainda estão para serem descobertos pela ciência. Estes animais possuem uma importância que não pode ser expressada apenas em palavras, são organismos extremamente relevantes, como exemplo, podem participar da ciclagem de nutrientes (devido principalmente a seus hábitos decompositores), atuar na polinização de espécies de plantas, e, em uma visão mais antropocêntrica, atuar no controle de pragas que prejudicam cultivares. Além disso, podem também possuir importância médica devido a tantos agentes etiológicos causadores de doenças que podem transmitir aos seres humanos e outros animais.
Os insetos podem ainda ter uma grande importância na área forense, que se ocupa da resolução de crimes e alguns outros problemas judiciais. Isso ocorre devido a seu hábito alimentar, pois para se desenvolverem, muitos insetos podem utilizar carcaças de outros animais para se alimentarem, ademais, podem ainda as utilizar para ovipositar ou ainda para predar as espécies que são atraídas pelas carcaças. Por outro lado, deve ser levado em consideração que os insetos podem se alimentar de produtos armazenados ou mesmo alimentos frescos, o que pode causar certo incômodo a algumas pessoas devido ao fato de estas poderem os encontrar em seus alimentos. Este é outro exemplo de utilização desses animais na Entomologia Forense, o que pode resultar muitas vezes em processos judiciais contra empresas alimentícias.
Mas como especificamente os insetos pode ser utilizados na resolução de crimes? Existe um termo na área criminalística que é denominado “Intervalo pós-morte”, que se trata do tempo que o corpo encontrado está morto. Para se determinar isso são utilizados vários fatores, como é o caso da temperatura corporal e rigidez cadavérica. Como já foi comentado, os insetos podem se sentir atraídos pelo cadáver ou por outros fatores relacionados a ele, e, assim, estes animais podem colonizá-lo. Assim, com base nos insetos encontrados pode-se estimar o intervalo mínimo e máximo de morte do agora cadáver.
Mas como isso é feito? Os insetos (grande parte imaturos) que são encontrados nas carcaças são coletados e criados em laboratório, para que se estime a duração de cada estágio de vida destes animais. Por exemplo, se uma larva de mosca de terceiro instar (estágio de desenvolvimento) é encontrada, pode-se criá-la nas condições mais similares possíveis ao ambiente natural e verificar o tempo de desenvolvimento de cada estágio. Isso vai gerar estimativas de quanto tempo atrás o inseto colonizou a carcaça. São feitos estudos geralmente em carcaças de porcos, onde os mesmos são acompanhados diariamente para verificar quais ordens de insetos colonizam estas carcaças em cada dia que passa.
Dessa forma, sabe-se atualmente que os primeiros insetos a colonizarem carcaças são dípteros (no caso, moscas), principalmente da família Calliphoridae. Além desta família, Muscidae e Sarcophagidae (Diptera) também podem ser encontradas nas fases iniciais, e insetos da ordem Coleoptera (besouros), como é o caso de Silphidae, Histeridae e Staphylinidae, estes ainda podem ser encontrados nas fases iniciais-intermediárias. Com relação ao final do processo de decomposição, os insetos que podem atuar são em sua maioria besouros, como os escaravelhos (Scarabaeidae). No entanto, muitos outras ordens, além de Diptera e Coleoptera (as mais frequentes), podem ser encontradas em carcaças, como é o caso da ordem Mecoptera.
A Entomologia Forense surgiu há cerca de 150 anos atrás, sendo considerada uma ciência jovem, no entanto, apesar disso, já está bem estabelecida. Para quem tem interesse nessa área, é relevante dizer que tem que se ter muita paciência, pois muitos dados podem ser afetados por alguns fatores, como os abióticos (e.g. temperatura, umidade). Porém, é uma área fascinante e ao mesmo tempo forma profissionais que possuem grande importância na sociedade, pois podem reconstruir cenas de crimes com bases em seres que muitos consideram insignificantes. Há que se levar em consideração que estamos em nosso planeta há um tempo ínfimo se formos comparar com o tempo que os insetos já estão estabelecidos. Mas mesmo assim, temos um grande poder em nossas mãos, que é o de contribuir para a melhoria da sociedade, assim como os entomólogos forenses o fazem.


Referências utilizadas

Amendt J. et al (2004) Forensic Entomology. Naturwissenschaften 91: 51-65.

Lindgren N.K. et al (2015) Four Forensic Entomology Case Studies: Records and Behavioral Observations on Seldom Reported Cadaver Fauna With Notes on Relevant Previous Occurrences and Ecology. Journal of Medical Entomology 52: 143-150.



Oliveira-Costa J. 2011 Entomologia Forense: Quando os insetos são vestígios. Campinas: Millennium. 502 p.